sexta-feira, 24 de março de 2017

A Primeira Sortida Portuguesa: Do Passo Cuello ao Desastre no Pintado (13 a 23 Março 1817)


A 13 de março de 1817, uma forte coluna portuguesa,  comandanda pelo tenente general Carlos Frederico Lecor, sai de Montevidéu com direção a Canelones. Na verdade, esta primeira sortida portuguesa à campanha oriental era tão grande que eram na verdade duas colunas, uma comandanda pelo brigadeiro Jorge de Avillez a outra pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto. 
Com a excepção do 2.º Regimento de Infantaria, e do brigadeiro Pizarro, em serviço de guarnição, toda a Divisão de Voluntários Reais participou neste sortida, assim como as tropas do Rio Grande, principalmente cavalaria. 

Antecedentes: Guerra de Recursos



Montevidéu estava ocupada pelos portugueses desde 20 de janeiro, ficando o brigadeiro Sebastião Pinto de Araújo Correia como seu governador. A norte, o delegado Miguel Barreiro e as tropas da guarnição que haviam evacuado a cidade estavam acampados em Paso de Cuello, cerca de 16 quilómetros a norte de Canelones, na estrada para o rio Negro, sob o comando militar de Frutuoso Rivera. 
Lavalleja comandava a vanguarda desta divisão e, a partir de Toledo, assedia rigorosamente as tropas portuguesas. Ramón de Cáceres relembra que, à custa dos prodígios de valor e coragem deste comandante oriental, futuro líder dos 33 orientais, não podiam os portugueses sair da área de conforto da praça para forragear, senão em fortes colunas das três armas.

Laballeja hizo en ese tiempo prodigios de valor, muchos caballos le mataron, y le hirieron los Portugueses, con la suerte de que jamas le tocase á él una bala, en una guerrilla que hubo en frente de lo de Maroña, con 18 hombres, acuchilló hasta los Infantes, despues de haber dispersado un grupo de Caballeria de doble numero y hasta los hizo algunos prisioneros. (Ramon de Caceres)

Montevidéu sofria de falta de alimentos, assim como cavalos, e apenas uma sortida deste tamanho, próximo decerto dos 3000 efetivos, poderia chegar à campanha mais afastada de Montevidéu, para lá de Canelones e cobrir o máximo de terreno para forreagem. Mesmo depois da sortida, com poucos resultados, Lecor informava o Rio de Janeiro que a praça só tinha mantimentos para dois meses, sendo muito necessário o envio de produtos. De facto, os orientais haviam retirado todo o gado, cavalos para lá do Rio Yi, por forma a negar qualquer facilidade ao invasor português. Era a guerra de recursos.


Representación pictórica de la Batalla de Paso Cuello, ocurrida el 19 de marzo de 1817 en el actual territorio de Uruguay. (Angel Saibene, fonte: Wikicommons) 

Na vila de Canelones comemorou-se este esforço coletivo do povo oriental no passado dia 19 de março de 2017, através da ação do Paso de Cuello. Quão parecido, no entanto, seria o cenário deste povo em fuga face a um invasor a Lecor que assistiu a algo semelhante em 1810 na Beira, na 3.ª Invasão. Quão depressa passamos nesta vida de uma coisa a outra, principalmente no serviço real.

Para lá da forreagem para suprir as necessidades de curto prazo de uma guarnição de perto dos 5000 homens, o principal objetivo de Carlos Frederico Lecor era bater Rivera numa ação geral. A ameaça oriental no norte, junto à fronteira do Rio Grande, era ainda sentida e o apoio de Lecor e da DVR era muito desejado por Joaquim Xavier Curado, que comandava as tropas do Rio Grande nas margens do rio Quaraí. A divisão de Rivera era direita de Artigas e sendo comprometido, a permanência de Artigas na margem oriental do Uruguai ficaria em perigo, entre duas forças portuguesas. Pelas exatas mesmas razões, no entanto, Rivera não podia perder a sua divisão.

Paso de Cuelo, 19 de março de 1817

Paso Cuello (fonte: Panoramio)

Após permanecer alguns dias na atual vila de Canelones, a 19, o tenente general Lecor decide-se finalmente a atacar Rivera e, quiçá, forçá-lo a uma ação geral. Os exércitos encontram-se no Paso de Cuello, hoje em dia um amena plaia fluvial, no caminho para Florida e dos rios Yi e Negro. Do lado português, é dificil precisar quantos militares, dos pelo menos 3000 que estariam presentes ou próximos do Paso de Cuello. Sabemos apenas que apenas o 2.º Batalhão de Caçadores participou. 
Do lado oriental, há dados mais precisos, sendo por volta de 1400 a 1500 militares sob o comando geral de Frutoso Rivera, entre os quais o Batalhão de Libertos, comandado por Rufino Bauzá, as tropas da Guarnição de Montevidéu, sob Bonifácio Ramos, a Vanguarda de Juan Lavalleja e as tropas que acompanhavam Rivera desde Setembro.


O nosso conhecido memorialista Ramón de Caceres, teniente segundo a esta altura, e parte da divisão de Rivera desde setembro do ano anterior não é tão crítico como mais propriamente incrédulo face à posição que Rivera adotou perante o passo e os portugueses, colocando 200 negros de Libertos de infantaria num bosque junto ao paso, e o grosso da força, a meia légua (antiga espanhola, c. 2,7 km) do Paso Cuello. Caceres parece indicar que este dia foi um de demonstrações, mas de peito aberto, exibindo cada lado a sua força. Só assim, o posicionamento de Rivera lhe faz sentido.

Hace Lecor una salida [...] y se dirige sobre nuestro Q. General en el Paso de Cuello, alli se le presenta el simulacro de una Batalla, sin pies ni cabeza, se colocó una emboscada como de doscientos infantes en el paso, para obstruirlo al enemigo, y toda nuestra fuerza, formó en Linea, á media legua de distancia Sobre una cuchilla, como para mostrarla al enemigo, sin considerar que con essa maniobra manifestaba al enemigo que la emboscada no podia tener un apoyo considerable, pues, desde que el debia saber el numero de nuestra fuerza, y la veia á distancia tan considerable, era invitarlo á que se hechase encima de la que le habiamos puesto de carnada, á mas el paso no presentaba obstaculo por que es muy espacioso; y solo al abrigo de un monte bien poco espezo estaban parapetados nuestros soldados. (Ramón de Caceres)
Paso de Cuello (fonte: Panoramio)

Entre as 14 e as 15 horas, Lecor decide-se a forçar as posições orientais e para o efeito ordena um ataque de caçadores sobre o passo, executado por cerca de 200 homens do 2.º Batalhão de Caçadores, do tenente coronel Francisco de Paula Rosado. Em resultado desta carga de caçadores, aprisionou-se a maioria dos 200 infantes Libertos, e abriu-se o passo à passagem das restantes tropas portuguesas. Dois sargentos, Francisco Rodrigues Pereira e Francisco António Pereira, foram promovidos a alferes por distinção. Caceres lembra-se:

Lecor se resolvió á forzarlo, y nos hecho una columna de 800 cazadores de Voluntarios reales; Soldados perfectamente disciplinados y aguerridos, que passaron con la velocidad del rayo, y nos tomaron prisionera casi toda la Infanteria que estaba en la emboscada; en seguida se venieron sobre nuestra Linea que tuvo que ponerse en retirada con direccion al Paso de la Arena (Ramón de Caceres)

Ramon de Caceres fala de 800 caçadores, mas isso seria bem mais os cerca de 600 que o batalhão tinha. Lecor refere uma vanguarda do 2.º Batalhão de Caçadores, pelo que deveriam ter sido entre 200 a 300. Lecor atribui 50 a 60 mortos orientais e 40 prisioneiros, todos dos Libertos postados imediatos ao passo.

Ao ver as tropas portuguesas força o váu, Rivera ordena a retirada para o Paso de Arena, mais a norte, junto a Florida, com Lecor a persegui-lo até anoitecer, quando decide desistir. A primeira intenção de Lecor era perseguir o inimigo até ao Rio Negro, mas, conforme refere em carta ao rei D. João, a 16 de abril, é obrigado a mudar de plano devido ao “abatimento em que se puseram os cavalos”, assim como para evitar que Rivera se viesse a ligar a Artigas, mais a norte, impedindo assimque uma tal força reunida pudesse fazer frente às tropas do Rio Grande, na fronteira do rio Quaraím. Esta segunda razão mais força ganhava pois não havia comunicação terrestre entre Lecor e Curado, senão por mar.
Entretanto, Lecor ordena vários rodeios para recolha de animais, informando que só conseguiu obter 1000 cabeças de gado devido a uma grande falta de animais na campanha:

Apenas pude fazer juntar mil cabeças de gado vacum, tendo o inimigo feito arriar todas as manadas para além do Gi e Rio Negro (Lecor a Barca, 1.4.1817)

O Desastre do Pintado, 23 de março de 1817


Arroio do Pintado (fonte: Panoramio)

No seguimento das demonstrações de 19 de Março (e da ausência de uma ação geral), e após desistir da perseguição a Rivera (satisfazendo-se no entanto em dispersar 2 ou 3 centenas de orientais), as colunas portuguesas iniciam o trabalho de forreagem a partir do dia 20, presumindo que dada a sua força, ocupariam um largo território. 

A coluna de Silveira, ainda chamada do Centro, estava, três dias depois, nas cabaceiras do Arroio Pintado, uns 20 quilómetros a norte de Florida, e preparava-se para acampar. No seu relatório sobre o “triste acontecimento”, o brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto explica o que aconteceu. Não me resta aqui mais que acrescentar que em muito se assemelha este “desastre” (a palavra é do brigadeiro) ao de Sauce, ou Mataojo, em dezembro. A grande diferença porém é que Sauce nasce de uma vontade de glória acompanhada de incompetência, enquanto que Pintado nasce de incompetência apenas.

Ainda que bastante pequeno, este tipo de incidentes, em que se permite a uma força rápida de cavalaria inimiga atacar e destroçar uma força portuguesa, lasca na reputação de invencibilidade portuguesa. Lasca ainda as reputações pessoais dos oficiais generais perante os governos do Rio de de Lisboa. 
Nos dias seguintes, Lecor é muito cauteloso nos seus relatórios, por causa do que aconteceu no Pintado. Na verdade, a primeira sortida portuguesa não cumpriu os seus objetivos: não forçou Rivera a uma ação e apenas obteve 1000 cabeças de gado. Já o lado oriental não se podia queixar: manteve a integridade do exército, a ala direita de Artigas, negou recursos aos inimigo e voltava agora a uma posição de assédio sobre Montevidéu, mal as forças portuguesas retornam à cidade, deixando a campanha a Artigas.

Bernardo da Silveira Pinto a Carlos Federico Lecor. 
Cabeceiras do Arroio Pintado, 23 de Março de 1817 [in: Archivo Artigas, v. 33: pp. 57-59]


/Copia Desastre no Pintado
Ill.mo Ex.mo Senhor
Chegando hoje a este Campo, vendo que não havia lenha para o rancho dos Soldados, e que só poderia haver-se dos Curraes, ou Potreiros de huma Caza que fica sobre a direita do Campo em distancia de menos de meio quarto de legoa, para onde já se dirigiam muitos Soldados dispersos, Pioens, e Bagageiros dos outros Campos da Divizão, mandei apromptar meia Companhia do 2.° Batalhão de Caçadores e huma do Regimento de Cavallaria de Voluntarios Reaes d'El Rey, formando tudo huma força de 80 homens de ambas as Armas debaixo do Commando do Capitão Bento Joze Duarte deste ultimo Regimento, para proteger a gente, que fosse buscar lenha a refferida Caza.
Passado pouco tempo que o Capitão havia chegado á Caza principiou a ouvir-se fogo naquella direção mandei inmediatamente apromptar mais huma Companhia de Caçadores, e outra de Cavalleria, e marchei eu mesmo a apoiar aquelle Destacamento.
Quando hia em marcha fui informado pelo quartel Mestre do 2.° Batalhão [António Inácio de Seixas] que o inimigo havia carregado em força contra a Caza, e que tinha cortado a maior parte dos nossos Caçadores; em consequencia mandei ordem ao Coronel Apparicio, e ao Tenente Coronel Rozado que com o resto dos seus Corpos me seguissem; continuando no emtanto a marchar, cheguei ao alto da Cuxilla, aonde está collocada a Caza, encontrei o Capitão Bento Joze Duarte com o Alferes Martinho Rodrigues, e alguma gente da sua Companhia, e vi o inimigo em força de 150 homens pouco mais ou menos, que se hia retirando já em distancia, levando alguns Prizioneiros, tendo ficado alguns outros mortos no Campo.
Segui o Inimigo por algum tempo com a esperança de resgatar os nossos Prizioneiros; vendo porem que não era possivel podellos alcançar, e que mui provavelmente seriam assacinados se continuasse a seguillos, fiz alto, e voltei para o Campo.
Passando pela Caza em questão informando-me das circunstancias que tinham occurrido, não posso deixar de considerar o Capitão Bento Joze Duarte inteiramente responsavel por aquelle dezastre pela pessima dispozição que fez da força que lhe foi confiada: estabeleceu huma linha de Atiradores muito extensa, e em grande distancia da Caza contra as minhas Ordens  expressas, as quaes ultimamente lhe tinha mandado pelo Alferes João Pinto, meu Deputado Assistente, Sendo carregada repentinamente a sua linha de Atiradores, e mettida em confuzão pelas Guerrilhas de Gandra que vinham fugindo do Inimigo em dezordem, não pode apoiala suficientemente, e perdeu a maior parte dos Caçadores, e alguns Soldados de Cavallaria, como V. Ex.ª verá do Mappa, que tenho a honra de levar a sua prezença.
Se o Capitão Bento Joze Duarte tivesse collocado Judiciozamente o seu Destacamento, estabelecendo os Caçadores na Caza, e no Potreiro, que estava immediato, e que se achava intacto, e por entre as Arvores, que tambem havia proximas conservando a Cavallaria debaixo da proteção do fogo dos Caçadores, poderia resistir a forças muito mais consideraveis athé ser socorrido, ainda que o nosso Campo fosse muito mais distante.
Pela falta de taes dispozições, e mau uzo que faz das suas forças considero o Capitão Bento Joze Duarte inteira e unicamente responsavel pela perda de muitos valentes Soldados, pelo que o mandei prender á Ordem de V. Ex.ª para determinar o que for Servido=
Deos Guarde a V. Ex.ª Campos nas Cabeceiras do Arroio Pintado, 23 de Março de 1817Ill.mo e Ex.mo Sr Carlos Frederico Lecor=Bernardo da Silveira Pinto = Brigadeiro General
Está  conforme  o  original.  Secretaria  do  Ajudante  General15 de Abril de 1817 
Antonio  Felix  Lobo  Coelhooff.'' da Secr.' do Ajud Gen.

As Fontes

A primeira sortida portuguesa não é, de todo, um acontecimento propriamente relevante, tendo para mais em vista que Montevidéu já havia sido conquistada e que, na perspetiva portuguesa, o acesso marítimo era mais que suficiente numa primeira fase. Ainda assim, assume para os orientais a afirmação da sua resistência perante uma forte ameaça portuguesa, por volta do dobro do que tinham para fazer frente, ainda que por um pequeno período. 

Temos, porém, o testemunho dos relatórios militares, assim como as lembranças dos nossos velhos conhecidos João de Cunha Lobo Barreto e Ramón de Caceres. Em seguida, transcrevo alguns dos documentos que usei para escrever sobre estes acontecimentos, assim como os dois memorialistas.

MEMÓRIAS

Tenente JOÃO CUNHA LOBO BARRETO 
A Divisão, que desde a sua organisação foi sempre pontualmente satisfeita dos seos soldos, e no acto do seo embarque tanto em Lisbôa, como no Rio de Janeiro os recebeo adiantados, soffreo na entrada da Banda Oriental grande falta de pagamentos e fardamento; os soldados então estranhando muito estas seguidas privações, e sem manobras que os distrahissem, principiarão a mostrar seo descontentamento por uma repentina, e seguida deserção, que muito desfalcou as fileiras dos corpos ali permanentemente estacionados. 
Até que o Commandante em Chefe deixando a praça guarnecida com a 2.ª Brigada, e algumas praças de infantaria do Rio Grande, marchou em Março do mesmo (4b) anno sobre a VILLA DE CANELOENS com todas as mais tropas a fazer um reconhecimento sobre as forças do inimigo, que em pequeno numero nos tinha em rigoroso assedio; não tardou este a mostrar-se do outro lado da Villa sobre as colinas que dominão o PASSO DE COELHO, como pretendendo observar a nossa direcção, e mesmo oppor-se á nossa marcha, no caso que pretendessemos ir avante: / o General depois de tomar posições junto da villa ali se demorou alguns dias, 
[18.3.1817]/ até que em 18 – o atacou e repellio quase sem a menor resistencia; perdendo as tropas da pátria alguns mortos e prisioneiros; (5) nesta occasião se observou tambem que as tenções do General erão o poupar ás suas e contrarias tropas da effusão de sangue, e que a sua politica buscava conquistar com affabilidade; e não com o terror das armas os corações destes povos; pois aqui se lhe offereceo propicio ensejo de desbaratar aquella força inimiga, a quem elle como forçado a guerra, não fez senão ameaçar ou mostra-lhe a superioridade das suas tropas. 
A columna inimiga em bastante desordem, e atemorisada se retirava a passos largos sobre a CALEIRA DE THOMAZ GARCIA, em cujo seguimento fomos com marcha regular, e bastante moderada. 
[19.3.1817]No dia seguinte seguimos até o POVO DE SANTA LUCIA, buscando retrogadar para a praça; cuja marcha, posto que sempre acompanhados e incommodados pelo inimigo, se effectuou sem a menor dificuldade; e apenas no SITIO DO CINTADO [Pintado] uma faxina de Caçadores, que hia buscar lenha para o acampamento, foi quase total derrota, pelo descuido com que marchou a tres quartos de legoa do campo [c. 4,5 km], sem ter uma força de protecção que a posesse a coberto de semelhante golpe de mão, que taes tropas não estavão acostumadas a soffrer, e em que o inimigo pela destreza de seos cavallos faz quase consistir a sua grande tactica de guerra de recursos. 
Em poucos dias, chegou a columna ao SERRO DE MONTEVIDÉO, e d’ali se destruibuirão os corpos pelos anteriores acantonamentos, com ordens de os fortificarem, que nos convenceo de que este inverno se passaria sem mais alguma manobra.

* * * 

RAMON DE CACERES (pp. 395-396):


Llegan dos Portugueses á Montevideo evacúa la Plaza Barreyro, establece su Q. General en el PASO DE CUELLO, con los libertos y la Artilleria y una parte de la Divicion de D. Frutos que eran todas las Tropas de la Guarnicion; D. Frutos tambien alli campa á las ordenes del Delegado, y solo Laballeja queda con sus 400 hombres observando á los Portugueses desde TOLEDO, y les hostiliza de tal modo, que aun para salir á cortar cardos, y hacer forrages, tenian que ponerse al abrigo de fuertes columnas de las tres armas.Laballeja hizo en ese tiempo prodigios de valor, muchos caballos le mataron, y le hirieron los Portugueses, con la suerte de que jamas le tocase á él una bala, en una guerrilla que hubo en frente de lo de Maroña, con 18 hombres, acuchilló hasta los Infantes, despues de haber dispersado un grupo de Caballeria de doble numero y hasta los hizo algunos prisioneros.
Hace Lecor una salida con la mitad de su Exercito y / se dirige sobre nuestro Q. General en el PASO DE CUELLO, alli se le presenta el simulacro de una Batalla, sin pies ni cabeza, se colocó una emboscada como de doscientos infantes en el paso, para obstruirlo al enemigo, y toda nuestra fuerza, formó en Linea, á media legua de distancia sobre una cuchilla, como para mostrarla al enemigo, sin considerar que con essa maniobra manifestaba al enemigo que la emboscada no podia tener un apoyo considerable, pues, desde que el debia saber el numero de nuestra fuerza, y la veia á distancia tan considerable, era invitarlo á que se hechase encima de la que le habiamos puesto de carnada, á mas el paso no presentaba obstaculo por que es muy espacioso; y solo al abrigo de un monte bien poco espezo estaban parapetados nuestros soldados. 
[18.3.1817]Lecor se resolvió á forzarlo, y nos hecho una columna de 800 cazadores de Voluntarios reales; Soldados perfectamente disciplinados y aguerridos, que passaron con la velocidad del rayo, y nos tomaron prisionera casi toda la Infanteria que estaba en la emboscada; / en seguida se venieron sobre nuestra Linea que tuvo que ponerse en retirada con direccion al PASO DE LA ARENA – y nos perseguieron escopeteando nuestra rectaguardia hasta bien entrada la noche. 
[19.3.1817]Pasó al otro dia el Exercito Portugues el ARROYO DE STA LUCIA CHICO, con direccion á la FLORIDA, y acampado á las inmediaciones de este Pueblo, destacó un piquete como de 200 hombres de Infanteria y algunos caballos, á forragear y hacer leña en unas taperas; alli fueron batidos por nuestra Banguardia á las ordenes de Laballeja, se les tomaron 40 prisioneros entre ellos dos oficiales, y se los mataron algunos hombres, 
/ desde entonces Lecor, no pensó sino en retirarse á Montevideo y en esa marcha su Exercito iba hostilizado  por nuestras guerrillas, á Banguardia rectaguardia y por los flancos, no siendo dueño mas que del terreno que pisaba.
* * * 

CARTAS E RELATÓRIOS DE LECOR


Carta de Lecor ao conde da Barca
Montevidéu, 1 de Abril de 1817

No dia 13 de março pela manhã marchei deste quartel com as forças que restavam da Guarnição desta Praça, Forte do Cerro, e ilha Gorriti na direção de Canelones, e Passo de Coelho, esperançado que na última posição Frutuoso Ribeiro quisesse resistir; porém logo que fiz passar o RIO DE SANTA LUZIA aos caçadores, ele se pôs em retirada, abandonando a forte posição que ocupava, perdendo de noventa a cem homens entre mortos e feridos, e prisioneiros; e tendo-o perseguido até as nove horas da noite se lhes dispersaram trezentos a quatrocentos homens, fugindo para os seus lares, e outros apresentando-se na Praça de Montevidéu.
Apenas pude fazer juntar mil cabeças de gado vacum, tendo o inimigo feito arriar todas as manadas para além do GI E RIO NEGRO; o que faz dificultoso o fornecimento de carne para a Guarnição, e portanto necessário que V. Ex.ª dê as suas ordens para que seja enviada a esta Praça toda a qualidade de mantimentos para a Divisão, à exceção de vinho, aguardente, e sal que há em abundância, e em muito bom preço.
A colheita este ano foi muito escassa, e de Buenos Aires não se pode tirar trigo algum; e para suprir tão grande falta será bom que venha farinha de pau, e arroz; não tendo atualmente na Praça mantimentos para mais de dois meses.

Oficio de 16 de abril de 1817, Lecor ao Conde da Barca (Duarte, 277):

SARGENTOS Francisco Rodrigues Pereira & Francisco António Pereira (2.º BatCaç), que se distinguiram na Ação do Passo do Coelho:
“[...] tendo sido por mim presenciada a conduta destes dois sargentos no campo de batalha, eu os recomendo à Real Clemência [...], dignando-se de os promover a oficiais, e contando a sua antiguidade desde aquele dia 19 de março.” 

Carta de Lecor ao Conde da Barca
Montevidéu, 15 de abril de 1817

“Acerca do triste acontecimento que houve naquele dia; e como V. Ex.ª conhecerá pela cópia do dito ofício; tenho a acrescentar para conhecimento de Sua Majestade que algumas faltas de disposições do Capitão Bento José Duarte, do Regimento de Cavalaria da Divisão, o qual comandava as forças de Cavalaria e Infantaria, causaram aquele triste acontecimento, por cujo motivo se acha preso para entrar em Conselho de Guerra”.

Carta de Lecor a D. João VI
Montevidéu, 16 de Abril de 1817

[...]
Persuadindo-me que Fructuozo Ribeira operaria no PASSO DE  COELHO; aonde conservava a maior parte da sua força; marchei  com parte da Tropa na  direcção do sobredito Passo aonde cheguei na tarde do dia 19 de Março, encontrando aquella forte Pozição guarnecida por mil e quatrocentos a mil quinhentos Homens de todas as Armas, tres Peças e hum Obuz, ataquei a sobredita pozição; 

o inimigo se poz immediatamente em fuga, apenas a Vanguarda do 2.° Batalhão de Caçadores entrou no Váu; 
abandonando no Bosque que dominava a passagem, hum Corpo de Caçadores de Negros de que se fizeram quarenta Prezioneiros, ficando no bosque cincoenta a secenta mortos, e preceguindo o inimigo athe as oito horas da noute na direcção de PASSO DE ARENAS, se lhe despersaráo para cima de trezentos Homens de que, parte se me aprezentaram, e outros foram para suas Cazas como he costume.

A minha primeira intenção era seguir o inimigo athe o RIO NEGRO; vim porem obrigado a mudar de Plano pelo abatimento em que se pozeram os Cavallos, e evictar que Fructuozo Ribeiro se reunisse a Artigas para onde se dirigia, por que poria este ultimo em força capaz de fazer frente á Tropa de Rio Grande; 
/ e voltando sobre esta Praça aonde a minha prezença era necessaria, ordenei se fizessem algums Rodeios, e só se podéram ajuntar, mil Cabeças de Gado Vacum, achando-se a Campanha limpia de Animaes.

Da Tropa do Rio Grande não tenho recebido participação alguma desde que marchei do Rio Grande sabendo particularmente o que tem occorrido naquelle Exercito por noticias particulares tendo officiado ao Marquez d'Alegrete desta Praça, de Maldonado, e de Santa Thereza por via do Rio Grande, não sendo possivel ter Communicacão por terra, por cauza das Partidas soltas que cruzam e devastam a Campanha.

AA 32, 205-206

Carta de Lecor a Manuel de Brito Mozinho
Montevidéu, 23 de Abril de 1817

(para informação do Marechal General William Beresford)

[...] constando-me que no PASSO DE COELHO, no ARRÓIO DE S. LUZIA, existiam as forças do Partidario Fructuozo Ribeiro, marchei aquelle Ponto com a  1.° Brigada d'Infantaria Commandada pelo Brigadeiro Jorge Avillez, com o Regimento da Cavallaria da divizão e o 2.º  Batalhão de Caçadores, debaixo das Ordens do Brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto; com duaz Brigadas d'Artilharia; e com alguma Cavalleria das Capitanias de S. Paulo e Rio Grande: 

/ e tendo sahido desta Praça no dia 13 de Março proximo passado havendo-me demorado na VILLA DE CANELON, avancei daquelle Ponto no PASSO DE COELHO no dia 19, aonde cheguei das duas para as tres horas da tarde.
O Inimigo, occupando huma fórte pozição, tentou embarasar a passagem daquelle ARROIO; cujo intento foi frustado pelo Valor das Trópas, perdendo nesta  occazião o Inimigo bastantes Mórtos, e trinta e tantos prizioneiros sendo obrigado a deixar as pozições que accupava, e começar huma retirada precipitada na qual perdeu bastante gente, e que durante a noite debandou para  suas Cazas; segui o Inimigo, athe que a escuridade da noite me decidio a voltar ao PASSO DE COÉLO, aonde havia mandado fazer Alto as Bagagens.

Fiquei  Summamente obrigado aos Brigadeiros Jorge d'Avillez e Bernardo da Silveira Pinto; aos Commandantes dos Córpos e a todos os mais Officiaes, Officiaes Inferiores e Soldados, que se acharam naquella Acção. Incluso achará V.S. o Mapa dos Mortos, e feridos que houve no sobredito dia 19.

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