terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ataque do Potreiro de Arapey: 3 de Janeiro de 1817


No teatro leste, no litoral, após a conclusiva vitória em India Muerta, a 19 de novembro,  e o combate de Sauce a 9 de dezembro, onde se perdeu desnecessariamente uma pequena força de cavalaria, a Divisão de Voluntários Reais acampou em Rocha, San Carlos e Maldonado. O tenente genereal Lecor fez a ligação à Marinha, que estava em Maldonado desde 22 de novembro, e colocou-se em compasso de espera, preparando a vários níveis e por diversos canais a ocupação da cidade de Montevidéu. A esta altura, Lecor, a par da concentração e preparação da coluna, desenvolvia contactos políticos que lhe permitissem, com o menor risco possível, concretizar as ordens do Rio de Janeiro: ocupar a Banda Oriental.

A Campanha

No teatro oeste, na fronteira do rio Quaraí, desde finais de setembro que uma primeira invasão oriental foi sendo debelada nos seus eixos de entrada, primeiro em Missões (S. Borja), e depois em Ibirocaí e finalmente em Carumbé, a 27 de outubro, onde José Artigas foi derrotado em pessoa e, segundo alguns testemunhos, esteve quase a ser capturado. 

No entanto, porém, no tempo que foi necessário para Artigas recompor o seu exército, recorrendo a efetivos das províncias vizinhas de Corrientes e Entre Rios, o tenente general Joaquim Xavier Curado reuniu a suas tropas no acampamento na margem direita do rio Ibirapuitã Grande para remonta e organização, assim como para continuar a receber os reforços que vinham de Porto Alegre, enviados pelo capitão general marquês do Alegrete.

Os quase dois meses de calmaria neste teatro, permitiram a Curado reorganizar e re equipar o exército, assim como receber todas as forças que ainda chegavam. Para lá de reforços na cavalaria e em alguma infantaria, nota-se um grande aumento na artilharia.

No dia 15 de dezembro, o marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses, chegou ao acampamento do rio Ibirapuitã e tomou o comando do exército que formou em grande parada, forte de cerca de 2,500 homens. 
Apesar das forças experimentadas que comandava, Alegrete era um general não testado e sem experiência em combate e com reputação geral de político. Sofria de Gota, doença que o impediu de tomar o comando antes, e que o impossibilitava frequentemente de exercer o seu comando.

Alegrete percebeu, no entanto, que era fundamental tomar a iniciativa, coisa que desde o início das hostilidades havia sido negado por Artigas aos portugueses, apesar do insucesso deste. Alegrete e Curado, agora segundo no comando, tinham agora um exército com o qual poderiam passar o rio Quaraí em zona de sua escolha, e, em território oriental, destruir qualquer ameaça ao Rio Grande por muitos meses.

Cinco dias depois, a 20 de Dezembro, Alegrete destaca 600 homens sob o comando do brigadeiro Tomás da Costa Correia Rebelo e Silva, “com o fim de marchar até as imediações da guarda de Sant’Anna”, para deixar-se ser visto pelo inimigo, sendo que depois deveria retornar ao exército, que iria atravessar a fronteira mais a oeste.  

A última e mais importante ação da primeira fase, Carumbé, tinha acontecido exatamente na área de Santana, e o quartel general de Curado estava na área dos arroios Ibirapuitã e Ibirapuitã Chico, a norte de Santana. Era de esperar que esta nova fase das operações começasse nessa área importante para todo o trânsito da região, mas as decisões de Alegrete vão dar a iniciativa às tropas do Rio Grande e negá-la a Artigas e produzirão o melhor efeito possível para as armas portuguesas e para o Exército do Brasil.

A Batalha

Alegrete, por sua vez, coberto pelo movimento do brigadeiro Rebelo e Silva, decampou no dia de Natal e começou a marcha do grosso do exército para o rio Quaraí, tendo-o cruzado no 1.º de Janeiro de 1817, num passo próximo de um local chamado Lageado. Alguns dias antes, a 28, dois desertores orientais haviam-no informado da partida do grosso oriental para Santana, enganados pela demonstração feita por Rebelo e Silva, e que Artigas havia permanecido com uma guarda num Potreiro junto ao rio Arapey.

Decidido a agarrar a oportunidade, Alegrete destaca o tenente coronel José de Abreu (afamado já das vitórias consecutivas de Yapeyú, Ituparaí (ou Butuí) e da batalha de S. Borja), com cerca de 500 homens de todas as armas a fim de atacar Artigas no seu quartel general, devendo depois retornar ao Exército o mais depressa possível.

Às 20 horas do dia 2 de Janeiro, José de Abreu começou a marcha, dirigindo-se ao rio Arapey, mais a sul, para o interior da Banda Oriental, marchando a noite inteira sem parar.

Às 7 horas do dia seguinte, Abreu chega à vista do acampamento e dispôs rapidamente o seu comando em coluna para o ataque, tomando precauções para não ser incomodado pela retaguarda. 
Elogiando a localização do acampamento inimigo, que considerou “a mais adequada para huma defeza”, José de Abreu fez avançar uma coluna muito semelhante na sua constituição à que usou na batalha de S. Borja, com bons resultados. Na vanguarda, sempre os lanceiros guaranis, seguidos dos Dragões do Rio Grande e dos esquadrões de Entre Rios (a unidade que Abreu comandava já há 2 anos), com a infantaria e a artilharia no centro,  e a restante cavalaria atrás.

Também  como em S. Borja, 3 meses antes, com o uso da infantaria, Abreu conseguiu desalojar o inimigo da proteção natural (mato), de onde fazia fogo, e concentrá-lo no centro do acampamento para melhor efeito da artilharia.
O efeito surpresa e o facto de estar separado do resto do exército levou a que os cerca de 600 orientais acabassem por fugir pela sua retaguarda por um ponto nas alturas que cercavam o potreiro, deixando 80 mortos.

Tendo dado por concluído o ataque em Arapey, Abreu retorna a toda a pressa ao exército, acampado nas margens do arroio Catalán, onde chega às 19 horas desse dia, a tempo de participar na ação geral que todos sabiam ir acontecer.

* * *
Plano de Arapey, in LARA (ver fontes)


Parte official do Ten. Coronel Abreu, Comandante na acção d'Arapey, ao Marquez d'Alegrete General em chefe do Exercito Portuguez.

Depois de reforçada a vanguarda de meu comando com 40 homens de Infantaria, e 80 de Cavalaria, formando um Corpo de 500 praças, pelas oito horas da noite de 2 do corrente comecei a marcha, dirigindo-me para o arroio Arapey, em consequência das ordens de V.Ex.ª, e havendo sem interrupção caminhado toda a noite, cheguei à vista do acampamento de Artigas pelas 7 horas da manhã do dia 3.

Foram logo vistas no cimo dos Serros, que circulam aquele acampamento algumas vigias, que queriam reconhecer a nossa direção, e a proporção que íamos aproximando, elas foram-se igualmente reunindo em um dos mesmos Serros, aonde formaram um corpo de 200 homens a Cavalo.

A localidade que ocupava o dito Acampamento, é a mais adequada para uma defesa, que tenho conhecido.  O arroio Arapey, e um dos seus galhos, formando nesse lugar uma larga curvatura, oferece uma planície na falda dos Serros, que tão bem a cercam, e que dominam uma grande extensão de terreno:

A entrada da Planicie é uma só, e dificil no passo do mesmo arroio.

Na frente da linha do acampamento, corre uma profunda sanga, que vai extremar no dito Arroio, oferecendo somente um apertado trânsito, para a entrada de um Potreiro situado por detrás de dito acampamento. Os matos dos dois Arroios além de muito bastos, são entrecortados de outras tantas sangas, que compõem esconderijos, para uma bem feita emboscada.

Antes de chegar ao passo do Arroyo, mandei reunir a guarda avançada, e as vedetas, que tinham saído fora da coluna, e desta forma passei com alguma dificultade, mas sem encontrar a posição do inimigo.  

Deixando neste lugar uma guarda suficiente do Regimento de Dragões , debaixo do mando do Alferes Vasco Pereira de Macedo, para impedir alguma agressão dos charruas, por aquele lugar, avancei até 400 passos distantes do centro do acampamento e tendo observado que por todo o mato havia inimigos espalhados, como de emboscada, dividi a Infantaria da Legião de S. Paulo em duas partes, uma ao mando do capitão José Joaquim Machado [de Oliveira], mandei avançar para o flanco esquerdo do Acampamento, protegida por um quarto de Esquadrão de Dragões, e logo depois outra comandada pelo capitão Joaquim da Silveira Leite, para o direito, igualmente protegida por outro quarto de Esquadrão de Dragões, para repelirem o inimigo daqueles dois lados, e o congregarem num ponto, a fim de sofrerem com mais prejuízo a descarga de Artilharia, que ficou postada com direção ao centro do acampamento.  

Apenas a Infantaria se entranhou pelo mato, começou um vivo fogo de ambos os lados, e repelindo o inimigo para diante, o pôs em estado de ser juntamente carregado pelo bem dirigido fogo de Artilharia, a qual principiando a laborar neste tempo dispersou-o ate à saída do mato. 

Toda a Infantaria já reunida neste ponto, protegendo ali a avançada de dois quartos de Esquadrões, comandados pelos tenentes Manuel Barreto Pereira Pinto, e José Rodrigues Barboza, foram em seu seguimento picando-lhe a retaguarda, por uma estreita abertura, que comunica ao Potreiro com um dos Serros, que fica alem do arroio, sem que vissem a sua total dispersão, e fuga precipitada. 

Os que não estiveram ao alcance da carga deste dois corpos, tendo de antemão deixado os seus cavalos, prontos do outro lado do arroio passaram-no violentamente, montaram, e foram reunir-se ao corpo que se achava no cume do Serro, o qual depois desta reunião pôs-se em fuga, sem poder jamais ser alcançado pelo esquadrão do tenente José Rodrigues [Barbosa], e pelo Esquadrão de Entre Rios do capitão Romão de Sousa, que foram imediatamente em seu seguimento.

As duas peças de Artilharia da Legião de S. Paulo ao comando do tenente José Joaquim da Luz, fizeram um fogo assíduo, ficando protegidas por um esquadrão de Entre-Rios, comandado pelo capitão José António Martins, e por outro de Milícias de Porto Alegre, comandando pelo tenente Joaquim Francisco de Moraes.

A emboscada constava de 100 Blendengues, e 200 Correntinos, conduzidos por Artigas em pessoa, que vendo frustradas as suas tentativas de defesa, pelo mortífero fogo da Infantaria, foi o primeiro que se pôs em fuga, e com tanta precipitação, que deixou o seu cavalo, arreios, e bagagem. 

Ficaram mortos 80 dentro do mato, e dois apreendidos. A minha perda foi de 2 Soldados da Infantaria da Legião de S. Paulo mortos, e 5 feridos.

Ficaram em nosso poder 1000 Cavalos, muito armamento, e bastante munição de boca e guerra, que sendo conduzida a que podia admitir uma marcha ligeira, foi o resto danificado, e da mesma sorte reduzido a cinzas o acampamento.

Tendo assim concluído o ataque, regressei para este lugar com aquela presteza recomendada pelas ordens de V.Ex.ª chegando pelas 7 horas da noite do mesmo dia 3.

Tenho muita razão de estar satisfeito do comportamento corajoso da oficialidade, e mais individuos, que compõem a vanguarda do meu comando. Aos capitães de Infantaria da Legião de S. Paulo Joaquim da Silveira Leite, e José Joaquim Machado de Oliveira, e ao Alferes do mesmo Corpo, José Francisco de Sampaio Calhamaço, os primeiros que invadiram o mato, devo a pronta evacuação do inimigo deste lugar, pela presteza, e boa ordem, com que conduziram os seus soldados fazendo fogo, conjuntamente com eles por um terreno encoberto, e cheio de escavações.  

É do meu dever igualmente levar ao conhecimento de V. E. os Serviços do sargento Mor Jeronimo Gomes Jardim, do capitão Joaquim Félix da Costa, e do ajudante Cláudio José de Abreu, sendo este empregado no expediente das minhas ordens. Devo também mencionar a perícia, actividade, e acerto com que dirigiu as suas pontarias, o tenente de Artilharia José Joaquim da Luz, e a presteza com que avançaram os tenentes de Dragões Manuel Barreto Pereira Pinto, e José Rodrigues Barboza a perseguir o inimigo na sua retirada, e fuga, e por igual motivo devo louvar os capitães Floriano dos Santos, e Romão de Sousa do Esquadrão de Entre-Rios, assim como os capitães de Guerrilhas Gabriel Machado e Alexandre Luís [de Queiroz]. A bravura de todos estes oficiais é assaz conhecida por V.Ex.ª, e nada mais posso acrescentar em seus elogios, e nem alcanço termos, que bem os possam exprimir.  

Deus Guarde a V. Ex.ª
Acampamento da Vanguarda em Catalán,  5 de Janeiro d'1817
(Assinado) José de Abreu=

[Archivo Artigas, v.33: pp. 6-9 - ver fontes ao fim. O texto foi modernizado ortograficamente, para melhor compreensão]

* * *

ORDEM DE BATALHA

Forças da Capitania do Rio Grande de São Pedro (Exército do Brasil)

Comandante
Tenente Coronel José de Abreu

Coluna (+ lado por onde atacou):

Esquadrão, Lanceiros Guaranis  (centro)
Esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande (ambas as alas, destacamentos)
Esquadrão, Milícias de Entre Rios (centro-direita)
Infantaria, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo (centro-direita)
Artilharia, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo (2 peças c.3) (centro)
Infantaria, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo (centro-esquerda)
Esquadrão, Milícias de Entre Rios (centro-esquerda)
Esquadrão, Milícias de Entre Rios (centro-esquerda)
Esquadrão, Regimento de Milícias de Porto Alegre (centro)

Flanqueadores:
Esquadrão, Milícias de Entre Rios [ala direita]
Esquadrão, Milícias de Entre Rios [ala esquerda]

Retaguarda (entrada no Potreiro):
Esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande 

Forças Orientais ou Federais – Liga dos Povos Livres

Comandante
José de Artigas

Entre 500 e 600 efetivos, tendo as seguintes unidades identificadas na emboscada inicial que os orientais fazem face ao avanço português:

- Regimento de Blandengues de la Frontera de Montevideo
- Milícias de Corrientes

BAIXAS



ARAPEY (3/1)

MORTOS
FERIDOS
Ação
OFICIAIS
PRAÇAS
OFICIAIS
PRAÇAS
Infantaria, LSP
0
2
0
5
TOTAL
0
2
0
5




De acordo com o relatório do tenente coronel José de Abreu, terão morrido pelo menos 80 orientais (cujos corpos foram encontrados no mato), e feitos 2 prisioneiros.

MÉRITO
Oficiais e cadetes que se distinguiram por valor e bons serviços em Arapey

Infantaria, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo
Capitão Joaquim da Silveira Leite (Infantaria)
Capitão José Joaquim Machado de Oliveira (Infantaria)
Alferes José Francisco de Sampaio Calhamaço (Infantaria)

Artilharia, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo
2.º tenente José Joaquim da Luz

Regimento de Dragões do Rio Grande
Tenente José Rodrigues Barbosa
Tenente Manuel Barreto Pereira Pinto
Alferes Vasco Pereira de Macedo

Esquadrões de Milícias de Entre Rios
Tenente coronel José de Abreu
Sargento Mor Jerónimo Gomes Jardim
Ajudante Claudio José de Abreu
Tenente Romão de Sousa
Tenente Joaquim Félix da Fonseca
Tenente José António Martins

Guerrilhas
Capitão Alexandre Luís de Queiroz


* * *

FONTES
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845;

IMAGEM
- Arapey (Arapey - panoramio.jpg) in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arapey_-_panoramio.jpg

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