domingo, 23 de julho de 2017

Bem Vindo aos Voluntários Reais

No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824. A campanha de 1816 foi, no entanto, um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.

AS BATALHAS: As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS: Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS: Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
Os VOLUNTÁRIOS: Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.

Editor e rato de biblioteca: Jorge Quinta-Nova [mail]

sábado, 22 de julho de 2017

Carta do Conde de Viana acerca dos eventos navais entre os dias 18 e 20 de Janeiro de 1817


Carta do Capitão de Mar e Guerra D. João Manuel de Meneses, 1.º conde de Viana, comandante da divisão naval de apoio à Divisão dos Voluntários Reais, a D. António Araújo de Azevedo, conde da Barca, Secretário de Estado dos Negócios do Reino, acerca dos eventos em torno da ocupação da praça de Montevidéu, entre 18 e 20 de Janeiro de 1817.

Illmo e Exmo Senhor

Tenho o gosto de anunciar a V. Excelência a entrega da Praça de Montevideu ao domínio de Sua Majestade no dia 20 deste mês, entrando o nosso Exercito na Cidade ao mesmo tempo q. entrava a Esquadra dentro do Porto, os habitantes da Cidade se acham no maior contentamento de se verem debaixo da Proteção de S. M., e livres da opressão em que há tanto tempo viviam; as Tropas inimigas evacuarão a Praça no dia 18, logo que a Esquadra fundeou em linha defronte da Cidade; no dia 19 me aproximei do Porto quanto pude com toda a Esquadra, ameaçando ataca-la, imediatamente se arvorou na Cidade a bandeira branca, dirigindo-se a meu bordo hum escaler, com uma deputação do Cabildo, trazendo-me uma carta do mesmo Cabildo, à qual respondi como V. Excelência verá pelas copias que remeto ao Sr. Marquês de Aguiar, tratando com a referida deputação o entrar com a Esquadra no dia seguinte, e tomar posse da Cidade debaixo do domínio de S. M., arvorando-se nos fortes a Bandeira Portuguesa, nesse mesmo dia fiz fundear dentro do Porto as Escunas Maria Teresa, e Tártara para evitar a saída de quatro embarcações, que se achavam carregadas de Pólvora, e apetrechos de guerra com destino ao Uruguai, no dia 20 pela manhã me fiz à vela com toda a Esquadra para dentro do Porto, tendo 200 homens da Brigada Real da Marinha, prontos a desembarcar para tomar posse da Cidade, ao momento em que vi aparecer à vista da Praça o nosso Exercito, por cuja rezão sustive o desembarque da tropa na Cidade, mandando tomar posse do Forte da Ilha das Ratas, e das quatro embarcações pertencentes ao inimigo, que se achavam carregadas com 450 barris de pólvora, e muitos apetrechos de guerra, os habitantes não podem estar mais satisfeitos, e o que desejam é serem para sempre, vassalos de Sua Majestade, à exceção de alguns europeus que muito lhe custou verem arvorar a Bandeira Portuguesa. 

De Buenos Aires tenho noticias até ao dia 18, e ao Sr. Marquês de Aguiar remeto todas as Gazetas, pelas quais V. Excelência verá a desordem em que se acha aquele Governo, tendo sido batidos os dois Exércitos de Mendonça, e do Peru, o General [Joaquín de la] Pezuela entrou em Salta no dia 4 deste mês; o Supremo Diretor de Buenos Aires pediu a sua demissão, e dizem que [Manuel] Belgrano vai ocupar aquele lugar, o Supremo Congresso retirou-se de Córdova para Buenos Aires, por se aproximar o Exercito Espanhol: em Buenos Aires reina a maior discórdia, entre o Povo e o Governo, de maneira que tudo está em uma completa desordem; são estas as novidades que tenho a anunciar a V.  Excelência.

1.º Conde de Viana, D. José Manuel de Meneses

Como o principal objeto da minha comissão era a tomada de Montevideu, e esta está concluída, desejarei muito assistir á Aclamação de Sua Majestade, uma vez que o meu serviço nesta comissão se acha acabado, restando somente a tomada da Colónia do Sacramento para onde conto partir em poucos dias, esperando ter a mesma fortuna de subjugar aquele Ponto ao domínio de Sua Majestade, da mesma maneira que todos os mais que se acham já gozando dessa fortuna, restando somente entrarem no Uruguai algumas embarcações pequenas para cooperarem com o nosso Exercito, quando marchar pela margem daquele Rio, e das 4 embarcações que tomámos ao Inimigo, estou armando uma para esse fim. Desejo muito que V. Excelência esteja inteiramente restabelecido, aproveitando esta ocasião de afirmar a V. Excelência a consideração em que tenho a honra de ser. 

Bordo da Corveta Calipso surta em Montevideu, 26 de Janeiro de 1817 
De V. Excelência Amigo muito Obrigado
Conde de Viana

[Ao] Illmo. E Exmo. Sr. Conde da Barca

Fonte
Arquivo Distrital de Braga, Fundo Família Araújo de Azevedo, PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/G/004267 [imagens 2 a 4]

Postagens Relacionadas
- Antecedentes à Tomada de Montevidéu: 15 a 19 de Janeiro de 1817

- Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817
http://dvr18151823.blogspot.pt/2017/01/entrada-em-montevideu-20-de-janeiro-de.html

Imagens
- Emeric Essex Vidal, "Monte Video from the Anchorage outside the Harbour.png" (Wikicommons)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Uma caracterização das tropas orientais e sua forma de conduzir a guerra


Antes de entramos no assunto, em que me estendo longamente no que espero ser de uso, é necessário perceber que Artigas e as forças federais vinham já de operações  bem sucedidas (contra Buenos Aires) em 1814 e 1815, e tinham assim a vantagem da experiência – sabiam já o que resultava com o que tinham disponível. A vitória na batalha de Guayabos, a 10 de janeiro de 1815, fortaleceu Artigas, permitindo-lhe tomar conta da Banda Oriental. Na verdade, de uma forma ou de outra, Artigas comandou tropas desde o início da revolução platense.


Imagem em cima

Representación pictórica de la Batalla de Paso Cuello, ocurrida el 19 de marzo de 1817 en el actual territorio de Uruguay. (Angel Saibene, fonte: Wikicommons)

A Importância da Campanha

Em termos estratégicos, é necessário também perceber que Artigas considerava que uma guerra seria ganha na campanha e não na cidade. Nada exemplifica melhor esta visão estratégica que o facto de Artigas ter criado a povoação (ou acampamento) de Purificación, na foz do arroyo Hervidero com o Uruguai, próximo de Paysandú, a partir do nada, apenas tendo em conta a centralidade, tanto acessando a fronteira, a norte, como Montevidéu, a sul, mantendo o Uruguai nas costas para uma eventual retirada para Corrientes.
Fernando Otorgués
Quando os federais entraram em Montevidéu, em fevereiro de 1815, Fernando Otorgués (então, governador) propôs a destruição de algumas das muralhas da praça, pois era impossível guarnecê-las todas. Artigas concordou, mas acabou por anular essa ordem logo de seguida. Algo parecido vai acontecer em janeiro do ano seguinte, à aproximação dos portugueses, em que Artigas mantém uma ordem de destruição das muralhas antes de uma evacuação. Nessa altura, fazer uma guerra de recursos com ações rápidas sobre o inimigo era a realidade do plano artiguista, frustrada que havia sido uma entrada pelo Rio Grande e Missões.



Invasión Portuguesa

Em Junho de 1816, quando chegam a Montevidéu as notícias certas de que as 4000 tropas portuguesas partiam do Rio de Janeiro, o plano de Artigas começa a ganhar forma e ímpeto. As tréguas com Buenos Aires haviam proporcionado alguma estabilização na formação de novos oficiais, como é exemplo Ramon de Caceres e em geral permitiram uma melhor instrução, ainda que limitada à falta de armamento. 
De acordo com os cálculos de Vazquez, à altura da invasão portuguesa, dos cerca de 8000 efetivos de Artigas, apenas 1000 (12%) eram tropas de 1.ª linha, pagas. O restante eram milícias, em geral não muito bem treinadas, mas engajadas ideologicamente com os princípios patrióticos:

El resto, 3.000 milicianos, 2.000 misioneros y 2.000 correntinos, son gente que acompaña a Artigas desde hace tiempo y ha participado ya  en hechos de armas. (Vaszquez, 184)

De particular importância eram os efetivos do Regimento de Blandengues de Montevideo, cavalaria ligeira equivalente aos dragões portugueses, mas apenas um décimo do total, espalhados pelas várias divisões artiguistas.

Regimento de Balndengues da Fronteira de Montevidéu (Samson)



Diferenças entre Portugueses e Orientais

As tropas da capitania do Rio Grande não eram, ao início das operações, em setembro de 1816, muito diferentes em composição das orientais. Se tanto, a percentagem de tropas de 1.ª linha seria o mesmo décimo que as suas adversárias. 
A mais fundamental diferença estava no equipamento e no armamento. As forças do Rio Grande estavam equipadas com o mesmo tipo de equipamento que qualquer unidade de Portugal. Descobertas arqueológicas no campo de Catalán, feitas pela Campos de Honor, indicam-nos que os portugueses estavam armados com mosquetes, espingardas e carabinas recentes, assim como artilharia de campanha conforme os standards da guerra peninsular (óbus de 5,5 polegadas e peças de 6).
No lado oriental, o panorama era diferente. O armamento era mais antigo e das mais variadas proveniências, espanhol, claro, francês, britânico, português capturado (ou vendido). O tenente coronel Vazquez apresenta-nos bem o panorama quando refere que:

las armas son absolutamente deficientes: casi nada de Artillería y muy contadas armas de fuego; los permanentes y heróicos "palos con cuchillos enastados", las ya clásicas chuzas de desjarretar y algunos sables. (Vazquez)

Não era apenas essa vantagem tecnológica que os portugueses tinham. Ao contrário dos patriotas orientais, as forças portuguesas do Rio Grande eram a continuidade do complexo militar da ‘fronteira do vaivém’, unidades que haviam nascido na forja da própria província , como os Dragões do Rio Pardo, ou no âmbito da invasão espanhola do Rio Grande, nas décadas de 1760 e 1770, como a Legião de São Paulo ou a Legião de Cavalaria Ligeira. Estas unidades trabalhavam coordenadas sob o mesmo comando desde 1770, e operaram em vários momentos até chegarmos a 1816, segundo os regulamentos militares portugueses, apenas um pouco adaptados (por exemplo, uso de bola e laços, para sustento e combate, assim como faca na bota, “ao modo do paiz”). Mais do que uma doutrina absolutista face a uma republicana, era uma doutrina experimentada e coesa, a portuguesa, face a uma doutrina experimental, com algumas raízes, mas fundamentalmente um novo tipo de exército, a oriental.


Orientais

O movimento federalista, oponente ao centralismo portenho de Buenos Aires, tinha, no entanto, uma característica vital. A Banda Oriental era, entre as províncias do antigo vice reino do Rio de La Plata, a mais voluntariosa na defesa dos ideais federalistas e do poder de José Artigas, seu protector. O apoio vinha de todas as classes sociais criolas, nascidas na América, desde a campanha até às cidades: Montevidéu, Maldonado, Paisandú, Salto, etc.
Ao elemento republicano, inovador, adicionamos o elemento provincial, das formas de combater, com lanceiros, por exemplo, nas Missões, de ambos os lados, em direta influência da forma guarani de fazer a guerra. 
A diferença, no entanto, era que Montevidéu nunca foi uma estrutura provincial da importância, no Rio de la Plata, como do Rio Grande de S. Pedro no Brasil. Até relativamente há pouco tempo, décadas finais do século XVIII, Montevidéu era uma gobernancia subordinada a Buenos Aires, e o seu território não cobria metade do atual Uruguai, a antiga Banda Oriental.
Desde a guerra de reconquista do Rio Grande, na década de 1770, que a província tinha um comando próprio e que se assumia como a fronteira, o ponto mais a sul do Brasil e de contacto com o império espanhol.

José Artigas
Plan de Artigas

Em agosto de 1816, sabendo das pequenas invasões no Cerro Largo e em Santa Teresa, a leste, Artigas tinha por objetivo atacar, ao mesmo tempo, em Missões, com cerca de 2000 sob Andrés Artigas, apoiados por Sotelo, & o grosso das tropas sob o próprio Artigas, na área de Santana do Livramento/Rivera, a ameaçar uma invasão sobre o sertão gaúcho. 
A intenção de Artigas era focar toda a atenção dos portugueses sobre a fronteira e dessa forma ganhar tempo e alavanca para deter a invasão portuguesa pelo leste, a Divisão de Voluntários Reais de Lecor. A melhor defesa é o ataque, parece recomendar o adágio.

Na verdade, Artigas não obteve esse ataque simultâneo, e Andresito Artigas começou a invasão das Missões Orientais, montando sítio a S. Borja a 21 de setembro. A 22 desse mês, dá-se o combate de Santana, só de cavalaria, em que os portugueses abandonam o campo aos federais, mas não há um confronto geral senão em Carumbé, a 27 de Outubro, que os portugueses ganham. Neste teatro norte, só em janeiro aquecerão de novo.

Evolução na forma de fazer a Guerra

Há duas épocas no que diz respeito à forma de conduzir a guerra por parte dos orientais. 

I. A primeira, do início das operações, em setembro de 1816 até Catalán e a tomada de Montevidéu (respetivamente 4 e 20 de janeiro de 1817): consiste em batalhas campais, de tamanho variável, em que os orientais atacam com uso do ‘corralito’. O objetivo geral passava ainda, até Catalán, em entrar pelo Rio Grande e dessa forma ameaçar o flanco da Divisão dos Voluntários Reais e a cidade de Porto Alegre. Em ações pequenas, só com cavalaria, os orientais obtiveram alguns sucessos (Zapallar, Pablo Paéz, Castillos, Sauce), mas não nas ações maiores, em que os portugueses tinham mais infantaria e artilharia.

II. A segunda, a partir de fevereiro, recorrendo à guerra de recursos (negando os mantimentos e gado aos portugueses), com os orientais a optar por ações de tipo guerrilha, assediando as operações de forragem do inimigo e atacando a retaguarda portuguesa: consiste em assediar o inimigo em qualquer saída que faça da área em torno da praça de Montevidéu, e tentar ações mais vigorosas sobre unidades em forragem (Arroio do Pintado, 23/3) ou da retaguarda (Toledo, 5/5). Os orientais evitam oferecer batalha, mas evitam também baixas e obtêm apenas sucessos. Ainda que pequenos, estas pequenas vitórias vexam bastante o moral dos invasores, e marcam a presença dos federais na campanha uruguaia.


Batalha de Carumbé (Vazquez, 1952)

Corralito

Ao refletir sobre a batalha de Carumbé, a única comandada por Artigas, o tenente coronel Juan Antonio Vazquez sumariza a tática oriental única utilizada por Artigas, assim como em outras ações, pelos seus tenentes:

Una larga y débil linea de infantería, [...] de todas maneras, una línea discontínua y sin profundidad. En los extremos, formaciones de caballería.

De facto, a mesma tática que Ramón de Caceres chama de ‘corralito’, é utilizada em quase todas as grandes ações: no centro, a infantaria, cerca de dois terços do total, muito espaçada, quase como se fossem atiradores em linha de escaramuça; a cavalaria, nas alas, flanqueando e tentando envolver o inimigo. 

O general portenho, Carlos Alvear, numa relação de tropas dos patriotas do Rio da Plata, em Junho de 1815, refere bem o espírito oriental e a sua forma de combater:

Estas dos Provincias son las mas entusiastas por la guerra, y todos sus habitantes á excepcion de una pequeña parte se unirian inmediatam.te a las tropas de Artigas y engrosarian su num.° en caso de invasion. Estas tropas son valientes, y de una constancia admirable; no tienen disciplina de ninguna especie, ni conocen otra formacion q.° la de ponerse en ala: hacen la guerra por el estilo de los Cosacos; devastando todo el terreno, q.e deben ocupar sus enemigos, y cargandolos al descuido; pero nunca presentando batalla, a no ser en el caso de contemplarse muy superiores en num.°. (Carlos Alvear, Archivo Artigas)

Devido à pouca instrução e experiência de muito do exército, Artigas e os seus tenentes (Andresito, Berdún, Latorre) recorrem a uma tática simples e direta, mas que depende da execução rápida. Com a devida escala, o exército francês viveu o mesmo tipo de problemas nas guerras revolucionárias, adotando táticas de infantaria mais simples, adaptadas a um exército de cidadãos. 
A tática padrão oriental, o corralito, chamemos-lhe assim, requer a iniciativa sempre, mas encontrou em quase todas as maiores ações a oposição eficaz dos portugueses, não só pela manobra e contra ataque, mas pelo uso muito eficaz da artilharia e da infantaria.
Em todas as ações de 1816, o primeiro movimento foi sempre dos orientais, a tentar flanquear, normalmente respondido pelos portugueses com manobra e contra ataque, com a cavalaria portuguesa invariavelmente a ganhar o dia com um último esforço (exceto India Muerta).

Ao refletir sobre a forma de fazer a guerra nesta campanha, Francisco de Paula Leal, oficial de Dragões, exprime bem a importância e força do ataque oriental e na capacidade dos portugueses o contra atacarem efetivamente.
[...] as grandes manobras devem fazer-se conforme as circunstancias, ainda que com os inimigos actuaes nenhumas são precisas, e basta só ter constancia para lhes resistir ao seu primeiro impulso que he forte (pois tem algumas vezes chegado a numa bela  hora, como succedeo em Catalam, na acção a que assistio o Exm. Marquez de Alegrete; em Carumbé, na acção commandada pelo Brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares; nos Potreiros de Arapehy, acção commandada pelo célebre  Tenente Coronel José de Abreo, &c.), e resolução para cahir sobre elles, quasi desordenadamente, debandando muitas vezes, porêm sempre com alguma porção de gente reunida, para não acontecer morrerem tantos soldados, como até aqui tem succedido. 

Em India Muerta, o marechal de campo Pinto reage à tentativa de envelopamento por parte dos orientais, e só a linha de caçadores, deitados, no centro começa a inverter a sorte da batalha. A ala esquerda, onde está o major Manoel Marques de Sousa, preocupava-se em enviar 30 cavalos a apoiar MacGregor nas costas do arroio de Sarandi de la Paloma, lá atrás, quando percebe, de repente, a ala direita oriental a fazer contacto, nesse seu esforço de tentar rodear.





Ramón de Caceres descreve-nos a linha oriental em India Muerta. Ele próprio estava nela, na cavalaria da ala direita, na sua estreia de fogo como teniente segundo. De acordo com ele, toda a linha oriental tinha perto de 15 cuadras, cerca de 2 quilómetros de frente:

D. Frutos mandó desmontar la infanteria, y formada en ala, los cuatro cuerpos, marcharan de frente hasta la Cuspide de una cuchilla, muy inmediata al lugar en que estaban los Portugueses. La caballeria que marchaba a los flancos luego que hizo alto la infanteria, formaron martillo sobre la misma.La Infanteria como he dicho en ala con intervalos considerables de cuerpo a cuerpo, y tan rala de hombre á hombre, que parecian Cazadores en guerrilla, agarraban una extencion inmensa. La Caballeria en el mismo orden, se extendia como para formar corralito á los Portugueses, (!era la tactica de entonces!) mi Divicion agarraba mas de seis quadras de extencion [c. 780 metros] ; macxime desde que habiendonos tirado cañonasos los Portugueses, mi Comandante me mandó relaer la linea, corriendose así á la isquierda, para que no hiciesen operacion las balas del enemigo – (estas fueron sus palabras) de suerte que desde nuestra derecha no se veia el costado izquierdo que venia á quedar en un bajo. (Ramón de Cáceres)
Croquis da batalha de India Muerta, Ramon de Caceres.

O maior problema e o que mais infere nas derrotas orientais é claramente a sobre extensão da linha oriental, na ânsia de envolver o inimigo, permitindo assim respostas adequadas por parte dos portugueses que contra atacam nos sítios mais fracos. Novamente a grande vantagem portuguesa é o uso de artilharia no local mais vantajoso, normalmente no centro, com apoio de infantaria.

O ‘corralito’ era, no entanto, uma excelente tática para pequenas ações envolvendo só cavalaria, como o prova várias ações na zona leste do Uruguai: Castillos (5/9), Zapallar (16/10), Pablo Paéz (4/12), Sauce (8/12). No entanto, não funcionava bem contra o uso combinado da infantaria, artilharia e cavalaria pelos portugueses. Estas vitórias, por pequenas que fossem, eram a única fonte de sucesso que os orientais conseguiram obter e indiciavam já o tipo de guerra que iram favorecer depois de Catalán.



A Exceção de Catalán

A batalha de Catalán é a exceção ao que escrevo, não porque não tenha deixado de contar como derrota aos orientais e por sinal fulcral para terminar a campanha a norte por muitos meses, mas porque os orientais comandados por Latorre conseguem, pela primeira vez, usando o terreno, surpreender totalmente os portugueses. A sua linha e a sua tática são iguais às de sempre, infantaria ao centro e cavalaria nas alas, mas o arroio e as sangas, assim como o escuro da madrugada, permitiram um melhor efeito.
O resultado destes fatores fazem com que os orientais consigam chegar à linha portuguesa, além do arroio que as separava, para serem repelidos pela infantaria de São Paulo e pela ação dos obuses de 5,5 polegadas, que tiveram grande efeito.

O tenente coronel Inácio Vicente da Fonseca, da artilharia da Legião de S. Paulo, relembra o primeiro ataque oriental, em Catalán, pelas 4 e meia da madrugada:

principiamos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes barbaros, e a descobrir hum grande negrúme por todas a Coxilha que estáva pela nossa frente, flanco, esquerdó, é retaguarda, a nossa Tropa dispoz-se imediatámente p.'. entrar em Acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua Muzica com grande dezafogo.” (Catalán, 0430H, TC Vicente da Fonseca)



Andrés Latorre
Latorre envia também toda cavalaria da ala esquerda (que Artigas indica ser toda composta de soldados de Corrientes) a carregar sobre o flanco direito português, a sul, e só a ação verdadeiramente extraordinária de dois esquadrões, de Dragões e de Entre Rios, vindo um da linha e outro da reserva, a alguma distância atrás da linha portuguesa, e homens como Sebastião Barreto Pinto e José de Abreu no comando, é que evitou um flanqueamento que poderia fazer perder todo o campo.
Uma tentativa de flanqueamento pela esquerda portuguesa foi tentanto a norte, mas, mais tímido, debateu-se a dois outros esquadrões de cavalaria que protegeram o passo em questão, próximo ao marquês de Alegrete, comandante português. 


André Guaçurari Artigas
A Pequena Guerra

Esta transição, ainda que forçada pelo êxito dos portugueses na costa atlântica, como na área do Quaraí, a norte, reflectiu fundamentalmente que apenas as ações de guerrilha tinham tido algum tipo de sucesso nos primeiros quatro meses. Isto é exemplificado perfeitamente nas operações de Otorgués, primeiro, e Rivera, depois, no assédio que fazem à Coluna do Centro, inclusive cortando as comunicações entre o seu comandante Bernardo da Silveira Pinto e o general Lecor, deixando Silveira num compasso de espera forçado, em que é atacado por Rivera.

Com as derrotas sucessivas em batalhas campais, apesar da iniciativa e moral, a doutrina oriental assume perfeitamente as ideias de Artigas de que a guerra só pode ser ganha na campanha, com o apoio das populações.
A divisão da direita, de Frutuoso Rivera, com o comando em Paso de la Arena, no arroyo Lucia Chico, próximo do que é hoje Florida, passou a conduzir uma guerra de recursos, retirando todo o gado para o norte do rio Negro e negando mantimentos aos portugueses, procedendo a um assédio constante com ataques à retaguarda de grande sucesso (Arroio Pintado, a 23 de março, ou Toledo, a 5 de maio). Lavalleja ganhou grande fama como comandante da vanguarda de Rivera, fazendo o que muitos qualificam como prodígios de valor e coragem perante os portugueses.



Bibliografia
CACERES, Ramon de, “Memória Postuma del Coronel Ramon de Caceres”, in: Revista Histórica, tomo XXIX, n.º 85-87, Montevideo, Museu Historico Nacional, Julho de 1959, pp. 377-566.
LASCANO, Diego M. & Buschiazzo, Marcelo Dias, Batalla de Catalán – El Aporte de la Arquelogía Militar, Colonia de Sacramento, Campos de Honor, 2016.
LEAL, Francisco de Paula, Divertimentos Militares, Rio de Janeiro, Imprensa Americana, 1837.
VAZQUEZ, Juan Antonio, Artigas Conductor Militar (Coleção General Artigas, n.º 12) Centro Militar, Montevidéu, 1953.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mapas de Campanha do livro "Artigas Conductor Militar"

As seguintes ilustrações foram retiradas do livro "Artigas Conductor Militar", escrito pelo tenente coronel Juan Antonio Vazquez, que pode ser encontrado online aqui.

Para além dos dois planos das operações gerais, chamo a atenção para o plano da batalha de Carumbé, o único que conheço, com indicação da localização geográfica.


Plano das operações a Sul do Rio Negro (1816-17)



Plano das operações a Sul do Rio Negro (1816-17)


Plano da Batalha de India Muerta (19.11.1816)
(leia mais sobre a batalha aqui)


Plano da Batalha de Carumbé (19.11.1816)
(leia mais sobre a batalha aqui)

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Fonte
- VAZQUEZ, Ten. Cor. Juan Antonio, Artigas Conductor Militar (Coleção General Artigas, n.º 12) Centro Militar, Montevidéu, 1953.

A Segunda Sortida Portuguesa e a Ação de Toledo (3 a 6 de Maio de 1817)


Há 200 anos, cumpridos que eram 3 meses da ocupação portuguesa de Montevidéu e após a sortida de Santa Lucia, em meados de Março, a Divisão de Voluntários Reais d’El-Rei (DVR) preparava-se para o que se esperava ser um Inverno calmo. Fontes, tanto portuguesas como orientais, falam de um aumento na deserção, que iria ainda aumentar. O nosso já conhecido tenente João da Cunha Lobo Barreto mostra-nos bem, na concisão típica de um caçador, o espírito desse Outono meridional entre as tropas portuguesas:

Nada ocorreu digno de memória, à excepção de uma pequena sortida que se fez sobre Toledo, cujo resultado nos ia sendo mui funesto. As deserções foram bastantes, a falta de pagamentos redobraram a ponto de sofrerem os oficiais e soldados toda a qualidade de privações e desgostos. (Barreto, p. 14).
Muitos portugueses sentiam a mudança das estações de forma especial, de outro hemisfério. O que para eles, criados num Portugal fortemente rural, era normalmente uma estação de desabrochar da natureza, flores, dias mais quentes, era ali o oposto, mais frio e igualmente ventoso. Na verdade, os homens e mulheres da DVR já o tinham sentido quando começaram a campanha, nas infindáveis areias do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande, mas deste feita era o primeiro ciclo completo. Outros, é certo, agarravam a promessa de aventura do patriotismo republicano.  Na verdade, a vasta maioria apenas seguiu o padrão natural de deserção das fileiras de um Exército dessa era, quando as operações paravam de forma abrupta.

Enquanto que para os Orientais e Artigas, a luta era agora de cerrada guerrilha, durante o ano inteiro, uma luta política, civil e militar, envolvendo todos, para os portugueses era 'apenas' o Real Serviço e a missão tinha de facto sido cumprida – a tomada de Montevidéu. 
Uma boa metade da DVR, contando feridos e doentes, estava permanentemente em serviço de guarnição da Praça. As duas brigadas de Voluntários Reais alternavam nesse serviço, acompanhadas das milícias locais e de unidades da Capitania do Rio Grande.





A Sortida

A maior da condicionantes estratégicas para o tenente general Carlos Frederico Lecor, agora capitão general da Banda Oriental, era a falta de provimentos em Montevidéu. A necessidade havia sido já a prioridade na sortida de Santa Lucia, em Março (com a eventual sobre extensão das forças portuguesas em forragem a causar aliás o desastre do Pintado), e era um problema crescente, dado o tamanho da cidade. A falta de trigo é particularmente premente, a acreditar mas fontes.

Devido, porém, ao acertado sítio montado pela divisão de Frutuoso Rivera, que atacava todas as sortidas portuguesas, qualquer que fosse o seu tamanho, qualquer sortida tinha de ser feita com todos os efetivos da DVR e do Exército do Brasil disponíveis. Rivera, que contava com o excelente comandante de cavalaria Juan Lavalleja, obtinha vários sucessos limitados, principalmente em ações sobre a retaguarda portuguesa, quando em marcha, ou forças isoladas em forragem.

Em Maio, pressionado pela chegada do inverno e pela necessidade de obter os tão necessitados mantimentos para a cidade, Lecor decide mandar forragear em força a única zona ainda não explorada: Toledo. Esta povoação, 15 kms a nordeste de Montevidéu, na estrada para Maldonado, era usada em Março como base para as operações da vanguarda oriental, comandanda por Lavalleja, que todas as fontes apontam como extremamente bem sucedida no combate aos portugueses.

A Parte Portuguesa

A fonte mais diretamente relacionada à sortida que partiu de Casavalles [na verdade, a ocidente do arroio Miguelete, provavelmente o atual bairro de Peñarol] para Toledo a 3 de maio de 1817 é um ofício do tenente general Lecor ao ministro da Guerra, António de Araújo de Azevedo, conde da Barca, datado de 10 de maio. Foi transcrito e publicado no Archivo Artigas, volume XXX, a qual transcrevemos em seguida, com a modernização da ortografia e uma leve adaptação. 

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor 
Para informação de Sua Majestade tenho a honra de informar a V.a Ex.ª que tendo sido preciso recolher algum trigo a esta praça ordenei ao brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto que marchasse sobre a povoação de Toledo com os Corpos seguintes = o 1.º Regimento d'Infantaria, o 2.º Batalhão de Caçadores; Quatro Esquadrões do Regimento [de Cavalaria] dos Voluntarios Reaes d'El-Rey, um Esquadrão composto de Cavalaria de S.Paulo, e Milícias do Rio Grande, e com a Brigada d'Artilharia [a cavalo] da Corte do Rio de Janeiro; 
[3.5.1817] 
No dia 3 do Corrente, saiu de  Casavalles, [nas] imediações desta Praça, em direitura àquela povoação. Artigas e D. Frutuoso Ribeiro [Rivera], reunindo forças muito consideráveis apareceram logo ao passar o [arroio] Miguelete, mas o brigadeiro continou a sua marcha pelo Pastoreiro de Pereira a Toledo, aonde acampou, entretendo somente algum tiroteio com o Inimigo. 
[4.5.1817] 
No dia seguinte, o brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto não saiu daquele ponto, começando o serviço, de que estava encarregado: o inimigo intentou, mas inutilmente estorvar esta diligência, e usando do despotismo para com os habitantes do [...] tinha por muitas casas espalhado o trigo, e derramando-o em outras tinha lhe lançado fogo dentro das mesmas casas, as quais teriam sido consumidas pelas chamas, se os nossos soldados não apagassem o incêndio, deixando desta maneira reduzidas a miséria desgraçadas famílias, que não tem outro modo de viver. 
[5.5.1817] 
O brigadeiro Silveira tendo concluído a sua diligência voltou no dia 5 trazendo hum comboy de trigo. Pouco depois de ter saído de Toledo, o inimigo apareceu em força debaixo do comando de Artigas, querendo carregar a guarda da Rectaguarda do comando do major João Joaquim Pereira do Lago do 1.° Regimento d'Infantaria, e composta de um esquadrão de Voluntarios Reaes d'El-Rey, comandado pelo capitão José de Barros e Abreu, e de uma companhia do 2.º Batalhão de Caçadores: o major Lago ordenou ao capitão Abreu que com o esquadrão do seu comando repelisse o inimigo o que (me informa o Brigadeiro Silveira) aquele Capitão praticou, carregando-o com a maior bizarria.  
O brigadeiro Silveira ordenou que outro esquadrão de Voluntarios Reaes d'El-Rey sustentasse aquele, e ambos carregaram vigorosamente. O inimigo foi perseguido por espaço de mais de meia légua [c. 3,3 km], três vezes intentou reunir-se, e outras tantas foi repelido tendo grande número de mortos e feridos.
O brigadeiro Silveira reunindo depois as tropas continuou a sua marcha, e ficou a noite na Estância de Pedro Guerra no Mangue [Manga]. O inimigo contem-se com respeito o resto do dia, aparecendo apenas em pequeno número em grande distância. 
[6.5.1817] 
No dia seguinte, o brigadeiro Silveira marchou para o seu acampamento de Casavalles, e estando em marcha apareceu na rectaguarda um forte destacamento, entretendo somente um tiroteio bastante vivo com a guarda da rectaguarda, no qual foi ferido o capitão Alexandre Eloi da Legião do Rio Grande.  
O inimigo durante os quatro dias de movimento sofreu a perda entre mortos, e feridos para cima de cem homens; contando-se no número dos primeiros, três capitães, e no numero dos Segundo[s] vários oficiais. A nossa perda nestes dias, ainda que não foi grande, com tudo tivemos oito bravos soldados mortos, e alguns feridos, como V.ª Ex.ª verá do Mapa junto [N.E.: o mapa não está transcrito]. 
O brigadeiro Silveira faz os maiores elogios aos dois esquadrões de [Cavalaria dos] Voluntarios Reaes d'El-Rey, que se engajaram, pois que se conduziram com uma bizarria, e valor superior a todo elogio: louva igualmente a intrepidez, e presença d'espírito, com que o capitão José de Barros e Abreu conduziu o seu esquadrão em umas poucas de cargas sucessivas, e recomenda-o mérito deste oficial, acrescentando que em outras muitas ocasiões, que tem tido de se bater com o inimigo, (depois que está ás suas ordens) se tem portado constantemente da maneira a mais brilhante. 
O brigadeiro Silveira me declara que o cadete do Regimento da Cavalaria da Divisão António Carlos manifestou a maior intrepidez, e valor, e tendo-se distinguido já em outras varias ocasiões, tenho a honra de recomendar a Sua Majestade o mencionado cadete para que seja promovido a alferes, não só pelo seu comportamento, mas até por ser o Cadete mais antigo do Regimento, e o qual mesmo já propus para Alferes, em proposta que remeti a V.ª  Ex.ª em Ofício de 6 de Março próximo passado. 
O brigadeiro Silveira recomenda o 2.° Sargento José Pires do mesmo Regimento de Cavalaria, o qual portando-se muito valerosamente no dia 5 foi gravemente ferido, e sofreu a amputação de uma mão, e tendo a bem disto muita boa conduta, o recomendo a Sua Majestade para ser promovido a Alferes, podendo passar à Infantaria, onde pode fazer o serviço. 
 
O coronel do 1.° Regimento d'Infantaria João Carlos de Saldanha faz os maiores elogios ao brigadeiro Silveira, pois achando-se junto ao mesmo Brigadeiro, quando o esquadrão do capitão Abreu carregou o inimigo, correu à rectaguarda, envolveu-se com aquele esquadrão, e teve o seu cavalo morto.  
O Major Lago foi  contuso de uma bala no dia 5 comandando a rectaguarda, e portando-se muito dignamente. Igualmente foi contuso o Tenente da Legião de S. Paulo Rodrigo Pinto. 
A Companhia d'Artilharia montada da Corte continuadamente tem servido bem, e o seu Commandante Isidoro de Almada [e Castro], e mais oficiais daquele corpo merecem os maiores elogios. 
Toda a Tropa empregada nos referidos dias mereceu a aprovação do brigadeiro Silveira pois portando-se admiravelmente bem mostrou a melhor disposição e boa vontade.

Deos Guarde a V.ª Ex.ª Quartel General de Montevidéu, 10 de Maio de 1817.
Ill.m° e Ex.m° Snr. Conde da Barca
Carlos Frederico Lecor 
 
Tenente General 
(AA 33: p. 70-sg)

* * *


Uma Parte Uruguaia

Um ‘oriental contemporâneo’, como se identifica o autor de umas memórias, escritas em 1830, que o historiador Bartolomé Mitre conota com alguém próximo de Frutuoso Rivera, oferece dados importantes sobre a perspetiva oriental da guerra. Pese embora uma grande confusão nas datas dos eventos, que também se podem encontrar, embora menos, no tenente Lobo Barreto, parece corroborar eventos reais. 
No caso específico, este ‘contemporaneo’ refere uma sortida a Toledo, mas coloca-a narrativamente antes da sortida de Março, na região  de Canelones/Santa Lucia, bastante mais a norte (a propósito, o autor coloca esta que sabemos ser em Março, em Setembro, enquanto que coloca a de Toledo em Julho – ambas as datas erradas, e trocadas!). 
O facto é que muito do que descreve parece ser relativo a esta sortida de Maio: a intensidade do assédio oriental à marcha portuguesa, as indicações geográficas a Toledo e Manga, as menções ao trigo que Lecor, ele mesmo, indicou ser o objeto principal da sortida (“comboy de trigo”, etc).
Poderia aqui ser bastante mais pormenorizado a prová-lo, mas creio que esta passagem do texto uruguaio diz respeito à sortida de 3 a 6 de Maio, nomeadamente o facto de ter havido um oficial oriental morto num grande combate (decerto o de 5 de Maio, junto a Toledo). Não houve desde janeiro, nenhuma outra confrontação de semelhante tamanho, senão a de Paso de Cuello, em 19 de março, onde não pereceu nenhum oficial oriental.

Com as precauções que indico em cima, transcrevo a parte do ‘oriental contemporaneo’, pelo que o leitor mais interessado poderá aferir das semelhanças.  De notar, porém, que Lecor não estava em Toledo e Manga, apesar do que escreve o ‘Contemporaneo’. Lecor estava em Montevidéu, no início da sua Vigia, como o colocou Mario Falcão Espalter em 1819:

Por último acosado ya el Baron con los continuos asaltos y perjuícos que sufría de los patriotas, resolvió lhacer una salida que efectuó á principios de Julio, y llegó hasta la quinta de Da. Ana Cipriano, en Toledo, á cinco leguas de Montevideo, de donde regresó después de haber tenido continuas guerrillas con los patriotas, que le dísputaban el terreno á palmos día y noche. El jeneral de los patriotas, Rivera, mandaba estas fuerzas, y en la misma quinta de Da. Ana, hubo un encuentro de no poca consíderacion, pués produjo porcion de muertos de una y otra parte: los portugueses perdieron un mayor, sobrino ó pariente del jeneral Márquez, y otro oficial, y los patriotas perdieron al ayudante del jeneral Rivera, D. Juan Manuel Otero, que murió en el encuentro: el capítan Lavalleja se distinguió en aquel día como acostumbraba hacerlo. 

El Baron, después de haber hecho cargar en carretas que traía todos los trígos y maíz de aquellos infelices moradores de Toledo y Manga, se retiró á Montevideo é hizo ocupar nuevamente a su ejército las posiciones que habían dejado al emprender esta primera salida a la campaña, en la cual no adelantó el Baron, mas que el aumento de granos que trajo á sus almacenes, habiendo dejado alguna caballada cansada de flaca, que llevaba, y no pocos soldados muertos. (Lamas)

Salvo algumas incongruências que poderão levantar dúvidas legítimas, creio que esta descrição diz respeito à sortida de que nos ocupamos agora, em Maio, sobre a região de Toledo e Manga, a leste de Montevidéu.

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Artigas em Toledo

Se Lecor lá não estava, as referências, porém, que encontramos a José Artigas enquanto comandante das forças orientais não são erradas. José Artigas estava de facto presente no combate de 5 de Maio, próximo a Toledo. 
Artigas estava já, aliás, no Paso de la Arena, junto a Florida, pelo menos desde meados de Abril, numa visita que inicia então à divisão de Rivera. Quemos nos informa é o bem informado Lecor, em carta de 24 de Abril ao conde da Barca:

[...] nada tem ocorrido importante, nem pelo que respeita aos nossos movimentos nem aos do inimigo, a não ser a chegada de Artigas ao passo de Arenas, sobre o Santa Lucia Chico, com uma escolta de cem homens: com o fim, dizem, de ver a tropa: observar a influência, que sobre ela tem Fructuoso Rivera, e indagar as transações políticas, havidas entre este e o Governo de Buenos Aires, com quem Artigas  está  muito  indisposto. (AA 32:p.214)

Por Lecor sabemos também que, em 18 de Abril, Artigas passa revista às tropas da Divisão Rivera, ou de la Derecha: cerca de 800 homens de “fusil e lanza”. A sua ordem de Batalha é muito semelhante à da ação de Paso Cuello. É pela parte de D. Álvaro da Costa, tenente coronel deputado do Ajudante General da DVR, escrevendo a um amigo a 7 de Maio, de Montevidéu, que sabemos da presença de Artigas no combate de Toledo.

[...] Enfim agora todo anda activamente. As nossas tropas sairam daqui há 5 dias e hontem recolherão com o trigo que tinham hido buscar, mas antes de ontem tiveram uma acção, (os Inimigos) com dois ou três dos nossos esquadrões e com alguma infantaria do que resultou deixassem no campo três oficiais mortos, e bastantes soldados levando muitos feridos, nós tivemos um oficial ferido e alguns soldados.Artigas que aqui chegou há dias, isto é, chegou a D. Fructos, viu de longe a acção pois de perto nunca entende. [meu sublinhado] (AA 32:219)

Em suporte à presença de Artigas em Toledo, ainda que assistindo de longe,  estão declarações de desertores orientais de Purificación que indicaram, já em julho, que uma tinha rebentado uma sublevação de 200 Libertos em Purificación, que acabou debelada pelos Blandengues, “quando Artigas se ausentó del Ervidero y fue a verse con Fructuoso Ribero”.

Purificación
Adicionalmente, os desertores que nos informam da visita de Artigas a Rivera (Antonio Castillo e Juan Fernandez) dão uma muito minuciosa descrição de como era Purificación, a capital dos Federais na foz do arroio Hervidero com o Uruguai, da sua guarnição, artilharia e disposições, assim como dos conflitos internos nos patriotas orientais. Ficará isso para um próximo artigo.

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Ponte moderna sobre o arroio de Toledo.

ORDENS DE BATALHA

Coluna Silveira (3 a 6 de Maio de 1817)

Brigadeiro general Bernardo da Silveira Pinto, comandante

1.º Regimento de Infantaria (DVR): c. 1000 efetivos
Coronel João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun

2.º Batalhão de Caçadores (DVR): c. 600 efetivos
Tenente coronel Francisco de Paula Rosado

4 esquadrões de Cavalaria (DVR)

1 esquadrão misto da Legião de Voluntários Reais e São Paulo e do Regimento de Milícias do Rio Grande.

Companhia de Artilharia a Cavalo da Corte do Rio de Janeiro
Sargento mor Isidoro d’Almada e Castro

Retaguarda (combate do dia 5 de Maio, junto a Toledo)
Comandante: Sargento Mor João Joaquim Pereira do Lago (1.º Reg Inf)
- Esquadrão de Cavalaria (DVR) - Capitão José de Barros e Abreu
- Companhia, 2.º Batalhão de Caçadores (DVR)
(- Reforço de um esquadrão de cavalaria)

BAIXAS
(Portugueses) 8 soldados mortos
(Orientais) cerca de 100 mortos e feridos

Contusos
- Sargento Mor João Joaquim Pereira do Lago (1.º Reg Inf, DVR), no combate de 5.5.1817
- Tenente Rodrigo Pinto (Legião de S. Paulo)
- Alferes António Félix Meneses (1.º Reg Inf, DVR), no combate de 5.5.1817

Feridos
-Capitão Alexandre Eloi (Legião do Rio Grande), no Combate de 6.5.1817
- 2.º sargento José Pires (Cavalaria, DVR), no combate de 5.5.1817 - amputação de mão

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Fontes
- Archivo Artigas XXX: 64-67
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- “Memoria escrita en 1830 por un oriental contemporaneo”, in: LAMAS, Andrés (Ed.), Coleccion de Memorias y Documentos para La Historia y la Jeografia de los Pueblos del Rio De La Plata (1.º Volume), Montevidéu, 1849.