terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Na Estrada de Montevideu


No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.

A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.

Campo de D. Helena, Praia Grande, 13 de Maio de 1816 (J. B. Debret, PInacoteca S. Paulo)


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTÁRIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.






Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]

A visita da fragata Congress a Montevideu (22-23 de Fevereiro de 1818)


No dia 20 de Fevereiro de 1818, a fragata norte-americana "Congress" chegou ao largo de Montevideu, vinda do Rio de Janeiro. Nela viajava uma missão diplomática constituída por Caesar Augustus Rodney (1772-1824), John Graham (1774-1820) e Theodorick Bland (1776-1846), um conjunto de políticos e diplomatas americanos nomeados pelo então presidente James Monroe para uma missão especial à América do sul, que veio a receber o nome de Comissão Sul-Americana de 1817-1818. Tendo visitado o Rio de Janeiro, entre 29 de Janeiro e 9 de Fevereiro, onde assistiram às celebrações da aclamação do rei D. João VI, largaram depois com destino a Montevideu.


Henry Brackenridge
As atividades desta comissão são importantes, mas para os nossos fins imediatos, interessa-nos mais a figura de Henry Marie Brackenridge (1786-1871), secretário dessa comissão, que legou para a posteridade as suas observações pessoais da viagem que veio a publicar em 1820, logo a seguir ao seu retorno aos EUA em 1819.

A fragata chega a Montevideu a 20 de Fevereiro de 1818, pouco mais de um ano após a conquista de Montevidéu pelas forças portuguesas, e os seus membros partiram para Buenos Aires na manhã do dia 25. O pouco tempo em que estiveram na cidade permitiram que tenhamos hoje acesso, pelas palavras de Brackenridge, a elementos esclarecedores sobre o estado presente da cidade, assim como estado maior português. 

No dia 22, visitou o quartel-general português. 
No dia 23, participou num jantar com vários oficiais do estado maior português. 

Da duas relativamente breves ocasiões, Henry Brackenridge oferece-nos um testemunho interessantíssimo do Montevideu ocupado, assim como do próprio capitão general Carlos Frederico Lecor. 

Desde já aqui deixo os excertos que poderão ter mais relevância, traduzido da sua língua original por mim, mas deixo também ao fundo as ligações para o texto completo da edição de 1820, em inglês, e para uma reedição de 1924, escrita em espanhol:

[Montevideu 22 de Fevereiro de 1818]
“Dessa forma procedemos para os alojamentos do general português, que ocupam uma das maiores e melhores casas na cidade. Entrámos num pátio ou veranda espaçoso, com galerias a toda a volta, por uma guarda de tropas negras, com aspeto brilhante e gorduroso, vestidos com uniformes vistosos. Nestes países os negros são preferidos para guardas e sentinelas, perto dos oficiais de distinção.
Depois de passarmos por vários salas, cruzando-nos com sentinelas e oficiais de serviço, que exibiam perante nós a pompa e circunstância do estabelecimento de um grande chefe, entrámos numa sala onde fomos polidamente convidados a nos sentar.
Mal tivémos tempo de nos refazer das reflexões produzidas por isto, para nós, uma cena pouco usual, quando o general ele próprio fez a sua aparição, com a qual ficámos extremamente impressionados. Ele é uma figura notavelmente elegante, alto e erecto, com uma dignidade nativa sem afetação de maneiras. Tem para cima de 55 anos, a sua tez é demasiado clara para um português; de facto, soubemos depois que ele é de descendência flamenga. A personalidade deste oficial não contradiz a impressão favorável que a sua aparência é calculada a fazer. A sua reputação é a de um soldado bravo e honrado, e de um homem polido e altruísta. Pelo que todos dizem, no entanto, ele não é excluvivamente devedor destas suas boas qualidades, pela sua elevação de um baixa estação de vida. O Sr. Bland apresentou-se através do White, que atuou como intérprete, e, após alguma conversação, no qual apresentou os motivos da visita, aceitou um convite geral para jantar no dia seguinte, o general ao mesmo tempo da forma mais prestativa prometia os seus serviços.” (p. 45-46.)

“Há algo extremamente doloroso na contemplação de cenas de decadência rápida e recente. Os sofredores no caos e na desolação são trazidos a nós, e não podemos senão simpatizar com os seus infortúnios. Ruínas antigas estão associados com seres, que no devido curso da natureza e do tempo, há muito tempo teriam desaparecido de qualquer forma, mas nós inevitavelmente partilhamos as misérias dos nossos contemporâneos, onde estamos cercados pelos seus tristes memoriais. A cada passo eu encontrava algo que me despertava estas reflexões. Vestígios do mais rápido declínio desta cidade há tão pouco tempo florescente e populosa. As casas, na sua maioria, estavam a cair ou desocupadas, ruas inteiras estavam desabitadas com a exceção das casernas da soldadesca. Nas ruas mais frequentadas, poucos eram vistos senão soldados […]. Parecia haver poucos ou mesmo nenhuns negócios a decorrer, mesmo nas pulperias e lojas. A cidade, de facto, parecia ter recebido a visita de uma praga.” (p. 46)

[Montevideu 23 de Fevereiro de 1818]

“Por volta do meio dia, recebemos uma visita do general Lecor e entourage. Os seus oficiais falavam em geral bom inglês, provavelmente por terem servido com eles contra os franceses. Esta era entendida como uma visita de cerimónia. Às três horas, procedemos aos seus aposentos, de acordo com o convite. O comodoro [Arthur] Sinclair tinha inicialmente recusado, mas posteriormente, após um convite premente enviado pelo general, sentiu-se impelido a ir. […] Encontrámos um grande número de pessoas reunidas, todos eles oficiais portugueses de terra e mar, exceptuando um cavalheiro num fato de cidadão, que, fomos informados, era um agente de Buenos Aires, num qualquer negócio especial; ele parecia um homem inteligente e aguçado, e o seu fato preto simples formava um singular contraste com os esplêndidos uniformes, e cruzes, e medalhas dos oficiais portugueses. Os divertimentos foram os mais sumptuosos. Era, com efeito, um banquete, composto de tudo à laia de peixe, carne e caça, que possa ser imaginado, sendo seguido por toda a qualidade de frutas que tanto este mercado como o de Buenos Aires podem oferecer. Os nossos ouvidos eram ao mesmo tempo regalados com a mais doce música da banda do General. Muitos destes oficiais, particularmente os ajudantes do General, era notavelmente belos homens; Acontece que me sentei junto a um deles, com quem pude conversar bastante. Ele expressou grande admiração pelas nossas instituições políticas, e caráter nacional, parte das quais eu obviamente tomei como cumprimentos. Ele falou dos patriotas de Buenos Aires como um grupo faccioso, incapaz de estabelecer um governo sóbrio; os seus líderes todos corruptos, e desejosos apenas de adquirir uma pequena dose de auto importância; o povo ignorante, e à mercê de demagogos ambiciosos: ele contrastava o caráter deles com as virtudes e inteligência do povo dos Estados Unidos. Ele falou de Artigas, como um atroz selvagem, e declarou um acontecimento recente de tratamento cruel aos seus prisioneiros; que o seu povo era, como todos os selvagens, totalmente insensível aos sentimentos da humanidade. Ele falou de uma forma pouco elogiosa acerca dos ingleses, e manteve a ideia que algumas vãs tentativas haviam sido recentemente feitas da sua parte, para induzir o Rei de Portugal a retornar a Lisboa.” (p. 52-53)

Henry Marie Brackenridge (1820), Voyage to Buenos Ayres Performed in the years 1817 and 1818 by Order of the American Government, London.

Leia em-linha 
- A versão em inglês, de 1820 [aqui - na Archive.net], 
- & em espanhol, a de 1924 [aqui - na GoogleLivros].


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A missão norte-americana vista pelos Portugueses

Numa carta de 25 de Fevereiro, o capitão general Carlos Frederico Lecor, que havia entretanto sido feito barão da Laguna no início do mês, por ocasião da aclamação do rei D. João VI, informa o secretário de estado dos negócios da guerra, Tomás António Vilanova Portugal, refletindo que apesar dos propósitos expressos desta comissão serem os de “tomar conhecimento do estado político das Províncias Unidas do Rio da Prata, inteirar-se da economia, e estabilidade do seu governo”, na verdade conseguiu apurar que esta missão era “mais aparente que necessária”, pelo que já estaria decidido que não só os Estados Unidos iriam reconhecer as Províncias Unidas (futura Argentina) como também socorrê-las contra a pretensões de Espanha e seus aliados.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

1.º Brigada: João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun


O coronel JOÃO CARLOS DE SALDANHA DA OLIVEIRA E DAUN nasceu no Palácio da Anunciada, em Lisboa, a 17 de novembro de 1790, nono filho do 1.º conde do Rio Maior, João Vicente de Saldanha Oliveira e Sousa Juzarte Figueira, e da D. Maria Amália de Carvalho Daun, filha dos 1.os marqueses de Pombal.

Assentou praça e jurou bandeiras como cadete do Regimento de Infantaria de Lippe, aos 14 anos de idade, em 28 de Setembro de 1805. No ano seguinte, a 24 de Junho de 1806, é promovido a capitão agregado da 10.ª companhia, beneficiando de um decreto desse mesmo ano que permitia a promoção direta a capitão aos filhos de conselheiro de Guerra. Exatamente um ano depois, passa a capitão efetivo no comando da 8.ª companhia, estando a patente assinada de 18 de Agosto. 
Entre 1805 e 1807, frequentou os três anos da Academia Real de Marinha com distinção.

Foi escuso do Real Serviço em 6 de Fevereiro de 1808, por moléstia, em protesto confessado à dominação francesa e para evitar servir na futura Legião Portuguesa, ao serviço de Napoleão. 
Após a restauração, apresentou-se ao serviço em Outubro de 1808, reassumindo o comando da 8.ª companhia e, em 9 de Dezembro de 1809, era promovido a sargento mor (major) do agora Regimento de Infantaria n.º 1. A 5 de Fevereiro de 1811, com 21 anos de idade, é promovido a tenente coronel. Participa com distinção nas batalhas do Buçaco, em 1810, e de Salamanca, ou Arapiles, em 1812. 

A 5 de Fevereiro de 1812 vai para o Regimento de Infantaria n.º 13, onde permanece até ao fim da Guerra Peninsular, tendo participado novamente com distinção nas batalhas de Salamanca, em 1812, e de Vitoria, em 1813, e posteriormente no sítios de San Sabastian e na Batalha de Nive. Em Setembro de 1812, comandou interinamente a 10.ª Brigada Portuguesa, que atuava de forma independente no exército de operações aliado.

Com 25 anos, a 22 de Junho de 1815, passa à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe como coronel adido, tornando-se já no Rio de Janeiro comandante do 1.º Regimento de Infantaria da Divisão de Voluntários Reais, após a reorganização da grande unidade.

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Leia também:




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Imagem (ao topo): Retrato de Saldanha, enquanto brigadeiro (década de 1820)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Armada Real: Rodrigo José Ferreira Lobo



O chefe de divisão RODRIGO JOSÉ FERREIRA LOBO nasce em Lisboa, muito provavelmente em 1768.

Foi para o Brasil, onde assenta praça, em 13 de Maio de 1783, no Regimento de Cavalaria de Minas Gerais. 


Algumas fontes indicam que era um protegido da casa dos Marialvas, nomeadamente de D. Rodrigo José António de Meneses (1750-1807), 1.º conde da Cavaleiros, e filho dos 4.ºs marqueses de Marialva. Além de partilhar os mesmos nomes próprios, o que pode sugerir uma relação de apadrinhamento religioso, a carreira do oficial acompanha proximamente a carreira do conde de Cavaleiros como dirigente colonial no Brasil (capitão general de Minas Gerais, entre 1780 e 1783, e da Bahia, entre 1784 e 1788). Não havendo provas concretas, é de crer que o jovem Rodrigo José tenha ido para o Brasil na companhia do novo governador de Minas Gerais, usufruindo do seu patrocínio na fase inicial da carreira.

Em 1784, passa ao Regimento de Artilharia da Bahia, como soldado, galgando os postos até 2.º tenente. A 30 de Janeiro de 1786, é já 1.º tenente da companhia de Galeão (ou Burlote) do regimento e comanda o bergantim Nossa Senhora da Conceição, em ação contra contrabandistas no litoral. A 6 de Janeiro de 1787, recebe carta patente de capitão de artilharia. 

Passa à Armada real como voluntário em Agosto de 1790, na fragata Minerva. Entre 1790 e 1798, Rodrigo José esteve embarcado nas fragatas S. João Príncipe, Carlota, S. Rafael e Tritão, tendo sido promovido a segundo tenente a 1 de Fevereiro de 1791, a primeiro tenente, a 16 de Novembro de 1793, e finalmente a capitão tenente, 3 anos depois. 

Comandou depois, entre 1798 e 1808, os bergantins Lebre e Voador, as fragatas Andorinha, Princesa do Brasil, S. João Príncipe e Minerva e a Nau Medusa, de 64 peças. Durante este período foi promovido a capitão de fragata no primeiro dia de 1800 e a capitão de mar e guerra a 17 de Dezembro de 1806. Em 1807, responde a um conselho de Guerra pela perda da fragata S. João Príncipe, de que era comandante, tendo sido absolvido.

Comanda a fragata Minerva, na esquadra que leva a Família Real ao Brasil em 1808. A 8 de Março desse mesmo ano, é promovido a chefe de divisão (posto equivalente ao atual comodoro). 

Em 1810, é nomeado comandante da Esquadra do Estreito, na nau Vasco da Gama. É sujeito posteriormente a conselho de guerra, com base nos eventos num encontro com argelinos no dia 4 de Maio de 1810, próximo de Gibraltar, tendo sido declarado culpado num primeiro conselho, com o mesmo resultado num segundo, num processo que durou 4 anos, e que só termina quando a 26 de Janeiro de 1815, o Príncipe Regente D. João o absolve, devido a irregularidades processuais. Em 1815, é o comandante do Arsenal Real de Marinha, não sendo certa a data da sua nomeação.

Em 1815, com cerca de 47 anos, é nomeado o comandante da esquadra que transporta a Divisão de Voluntários Reais do Príncipe ao Rio de Janeiro e a Santa Catarina. A par de Carlos Frederico Lecor e Sebastião Pinto de Araújo Correia, estes na componente terrestre, é um dos oficiais nomeados desde o início nas primeiras ordens do governo do Rio de Janeiro ainda em Dezembro de 1814.  

Comandou, a partir na nau Vasco da Gama, a tomada de Maldonado, a 22 de Novembro de 1816. 


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Leia também:

Bibliografia
- Innocencio Francisco da Silva et al., Diccionario Bibliographico Portuguez, Volumes 7-8, Lisboa: Imprensa Nacional, 1862;
- Joaquim Pedro Celestino Soares, Quadros Navaes: ou, Colleccão dos Folhetins Maritimos do Patriota. Tomo I. Lisboa: Imprensa Nacional, 1861;
- Eduardo de Castro e Almeida (Org.), Inventários dos Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa, volume 3 (Bahia, 1786-1793), Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1913 - disponível na internet aqui
- Comissão Brasileira dos Centenários de Portugal, Os Portugueses na Marinha de Guerra do Brasil: contribuição comemorativa dos centenários de Portugal (1139-1640), Rio de Janeiro: Estados Unidos do Brasil, 1940 - disponível na internet aqui.


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- Memoria dos acontecimentos mais notaveis, pertencentes aos dois concelhos de guerra feitos ao chefe de divisão, Rodrigo Jozé Ferreira Lobo, pelo encontro dos argelinos no dia 4 de maio de 1810: defeza do chefe e decisão da cauza, Londres: T. C. Hansard, 1815 - ler online.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Transcripto: Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete (João Vieira de Carvalho)


A carta que apresento transcrita foi escrita nos finais de 1814 e inícios de 1815, pelo sargento mor João Vieira de Carvalho ao marquês de Alegrete, marechal de campo D. Luís Telles de Menezes, então o capitão general da província do Rio Grande de S. Pedro, hoje do Sul. 

Esta carta precede as primeiras operações militares portuguesas em meio ano, quando ainda é desconhecido se uma expedição portuguesa venha, de que tamanho, e se isso representa a invasão da Banda Oriental. 
D. João já havia tomado a decisão de ocupar Montevideu pela altura em que esta carta foi escrita, mas só em maio, 5 meses depois, é que se sabe quantos homens levava a expedição (os nossos Voluntarios Reaes do Príncipe), que foi maior que o esperado (pelo menos duas fontes, incluindo aqui Carvalho - e Luís Santos Marrocos, que se esperavam 2000 portugueses veteranos da Guerra Peninsular).

A carta é fundamentalmente dividida em três partes: a primeira, versando sobre as questões políticas gerais; a segunda, sobre as questões diplomáticas a ter face às eventuais partes no terreno (Buenos Aires, Artigas e Espanha). A terceira parte da carta é uma reflexão puramente militar sobre como devia decorrer as operações militares, no caso de se decidir a invasão.


João Vieira de Carvalho
Futuro ministro da Guerra do Brasil imperial, por três vezes, após a independência, João Vieira de Carvalho, de 32 anos de idade, escreve ao seu general, a pedido do governo da Corte, refletindo, a partir da sua experiência de vários anos na província como sargento mor de Engenharia. 

A sua reflexão, erudita e militar em boa combinação, com referências culturais muito localizadas no tempo, data 202 anos hoje de nós que a lemos aqui. 

Vieira de Carvalho reflete, por exemplo, sobre a dispendiosas campanhas de 1811-1812, como a primeira "guerra sem aquisição de terras"; e defende que é vital ocupar a banda Oriental até ao rio Uruguai.

A ortografia é modernizada, e as minhas notas estão formuladas entre parênteses retos, que reputei fundamentais à compreensão de algumas referências. Coloca ainda também elementos titulares, antes de determinados pontos de interesse. Utilizo ainda o vermelho escuro para identificar passos de interesse, que servem de título ao que se segue.

[nota biográfica sobre o autor no final do artigo]


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Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete

As vantagens que se podem seguir ao Brasil com a posse da margem oriental do Rio da Prata merecem mais as vistas do governo do que mesmo o receio do novo sistema daquelas províncias, ou o cuidado filantrópico e pacificador das mesmas. O egoísmo nacional, que é desculpável em todas as nações e que praticamente sustentam as que melhor se governam, a desunião revolucionária de Buenos Aires, apatia do governo de Espanha a respeito dos negócios do Rio da Prata, e sobretudo a força política de um governo legítimo como o do Brasil guiado por fortuna nossa pelas virtudes e espírito de justiça de S. A. R o Príncipe R. N. S. formam a base da presente questão, que deve ter por princípio fundamental: aplicar meios proporcionais ao proveito do resultado. Se este não há-de ser a posse que deixo dita nada mais julgo próprio dos grandes esforços do governo.


Estão muito frescas as ideias dos anos de 1811 e 1812; duas campanhas se passaram. Absorveram mais dinheiro, armas, gente e recursos de transporte. Entendeu-se com a economia interna da capitania do Rio Grande. Os habitantes deste viram pela primeira vez e com desgosto uma guerra sem aquisição de terras. As capitanias do sul do Brasil sofreram uma concussão política, que bem se manifestou nas imigrações e fugas dos habitantes que se esconderam ao recrutamento e marcha das tropas (1). [notas de roda pé ao fim do documento]

Desfiguraram-se as boas intenções do novo governo publicando os revolucionários, e talvez acreditando-o os mesmo espanhóis, que de mãos postas pediam o socorro do Exército Português, que S. A. R. só queria de mão armada apossar-se da província de Montevideu; tendo o fecho de tais serviços a necessidade que se figurou de ir um emissário do Rio de Janeiro a Buenos Aires apadrinhar a retirada de um exército que não tinha conhecido reveses (2).

Salvou-se, é verdade, por uma vez a praça e província de Montevideu, porém ela caiu quando largámos a sua guarda. A revolução de Buenos Aires continuou, e da mesma sorte a Espanha na sua indiferença. 

Não me consta que ela mostrasse o mais pequeno reconhecimento ao Exército Pacificador, e no congresso de Viena, onde as nações parece ajustarem as suas contas políticas, esquecem talvez esta.

Recopilando portanto a minha primeira ideia digo, que sem a certeza da posse do território em questão devemos limitar-nos ao bom estado de respeito da nossa fronteira, punindo exemplarmente os roubos, estabelecendo pontos determinados para o comércio entre os dois países, vigiando escrupulosamente sobre a legalidade e boa fé do mesmo, deixando assim à feliz capitania do Rio Grande gozar do seu doce governo, e do espantoso acréscimo de agricultura e comércio que diariamente se lhe conhece (3).

Mas se enfim o céu tem reservado para o feliz reinado de S. A. R. a aquisição de um terreno de mais de quatro mil léguas quadradas, com dois portos de mar, próprio pela sua fertilidade e clima ao estabelecimento de muitos vassalos, o arredondamento da fronteira do Brasil por este lado nos limites naturais dos Rio da Prata e Uruguai, a influência direta em todas as províncias da América do sul até ao Peru, a melhor segurança das capitanias do sul do Brasil pela regularidade dos princípios que ministra a guerra a estabilidade de limites naturais, então ajustemos os dois grandes meios de o conseguir e abram o caminho às armas.


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Montevideu


Buenos Aires, Artigas e Espanha parecem ser os alvos das negociações políticas. O governo de Buenos Aires cheio de fações que se mexem com rapidez, sem representação nacional, dilacerado pelos partidos que lhe absorvem os seus pequenos recursos de numerário, sem exército, e enfim sem força para vingar.-se dos seus inimigos internos, não está em estado de oferecer vantagens nas suas negociações. Um governo revolucionário quando negoceia principalmente com aqueles que lhe são diametralmente opostos em princípios ou cobre de refinada malícia os protestos de reconciliação com que ganha tempo, ou patenteia indiretamente a sua fraqueza interna. Temos a experiência. Começaram os portenhos a revolução, e começaram logo a tentar o nosso governo com negociações que sempre abortaram. Protestos, intriga e dinheiro, tudo manejaram para se acreditarem dispostos a submeterem-se um dia a S. M. C. ou a unirem-se ao Brasil. Queriam ganhar tempo, e se agora renovam as suas instâncias é porque estão no segundo caso que deixo dito da fraqueza interna. Como poderá afiançar a realidade e fidelidade dos seus ajustes um governo que não tendo podido estender a sua revolução além do Peru, que não tem aliciado cabalmente a província do Paraguai, que não pode seduzir ou vingar-se de Artigas, e que até agora não tem obtido o favor de um só governo legítimo?

A intriga faz nascer as revoluções, e só as armas as acabam. Livre-se S. A. R. de ouvir protestos de revolucionários, e confiando tudo das suas virtudes, e ao valor e mor dos seus exércitos poderá um dia imperar sobre Buenos Aires tomando a divisa de Sobieski [rei João III Sobiesky da Polónia (1629–1696)]: Per has ad instam [referência a um brasão histórico deste rei com uma espada atravessando 3 coroas, e com a sua própria coroa no topo, com o lema: Através destas, aquela].

É portanto o meu parecer a respeito de Buenos Aires que nem se trate com altivez, porque é ela muitas vezes quem acende mais o republicanismo, nem com a consideração de relações.

Artigas tem roubado uma reputação que não merece. Reduzido a comandar talvez três mil homens mal armados, sem disciplina e rotos contenta-se com a sombra de uma representação que mal pode sustentar. Bem longe está ele das virtudes dos célebres campeões da liberdade dos povos Washington [George Washington (1732-1799)] e Guilherme Tell. Nem mesmo tem a ambição e coragem dos rebelados Oglow [Osman Pazvantoğlu, ou Pass[e]wan Oglow (1758–1807)] e Alibek [Ali Bey (tb. Bek ou Bak), al-Kabir (1728–1773)]. Um refratário mais do que um sistemático, não se ajusta, não concorda. As negociações com ele seriam frustradas, e o que se poderia esperar de um homem que não pode ser lisonjeado nem pelas virtudes nem pela ambição?

Se a alta e respeitável dignidade de S. A. R. se acha comprometida com a existência de Artigas, eu julgo que ela cessará com um simples aceno de S. A. R. ao excelentíssimo governador e capitão general da capitania do Rio Grande, sem contudo fazer a honra àquele refratário de mover exércitos para o castigar.

Parece que naturalmente se voltam os nossos cuidados políticos ao governo de Espanha. Façamos tudo por arrancar-lhe uma cessão formal da província e praça de Montevideu. Deve-se fazer valer os serviços já feitos à sua causa tanto na Europa como na América, e aqueles que as nossas tropas lhe podem ministrar na ocasião da sua expedição ao Rio da Prata; serviços que decerto serão os decisivos no resultado dos seus esforços.

Não será fora de propósito fazer entender ao governo de Espanha a cordialidade e zelo da nossa coadjuvação no caso da pretendida cessão, e a restrita posição neutral em que permaneceremos quando ela se não verifique. Não esquecerá ao encarregado desta comissão o fazer perceber a possibilidade em que estamos de fomentar a independência das províncias do Rio da Prata quando se não realiza a nossa pretensão (4).

Quando a Espanha responda negativamente julgo que se deverá protestar ao gabinete de Madrid assim como declarar a todos os da Europa, que sempre que a anarquia continue nas províncias do Rio da Prata, que a Espanha não ponha os meios de a evitar, e que os estados de S. A. R. se vejam ameaçados de uma força armada, então todo o território conquistado pelos exércitos portugueses ficará pertencendo de propriedade e direito a S. A. R. e nunca restituídos como em 1812. Não façamos sacrifícios generosos por uma nação que nos dominou injustamente sessenta anos e que cuidou tão pouco na nossa tutela que deixou cair nas mãos dos holandeses as nossas mais ricas possessões da América e Ásia; possessões que ou voltaram à custa de briosos esforços de vassalos como Vieira e Dias, ou se perderam para sempre.

É verdade que no tratado de 1680 garantem-se reciprocamente Portugal e Espanha as suas possessões entre Santos e o Cabo de Horn, estipulando mútuos socorros no caso de rebelião, porém eu julgo ter caducado este artigo logo que se estabeleceu o governo português no Brasil. O motivo daquele ajuste cessou com a emancipação deste país, e com o cabal conhecimento do com caráter dos brasileiros que, como deviam, receberam nos seus braços a S. A. R.. A conservação de tal artigo é certamente ofensiva a eles e bem alheia das pias e generosas intenções do augusto senhor.

Quando porém só por motivos de generosidade quisesse S. A. R. auxiliar os exércitos espanhóis deveria ser com uma pequena força proporcional à capitania do Rio Grande, e nunca empenhar a tropa de Portugal e das outras capitanias.


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Forte de Santa Teresa, Uruguai (wikicommons)

Resolvida por qualquer motivo a ocupação da margem oriental do Rio da Prata deve-se dar princípio às operações militares, precedidas estas por um manifesto concebido nos termos gerais de amnistia, perdão de opiniões políticas, respeito à religião, usos, costumes e propriedades, licença para a retirada de habitantes que queiram, assim para a venda de bens, etc.

A expedição de Portugal deverá vir para Santa Catarina, onde se conservará pronta a dar à vela logo que receba ordem do excelentíssimo governador e capitão general do Rio Grande.

O regimento de Santos virá acampar em Taim, e juntamente com ele duas companhias de artilharia do batalhão do Rio Grande com quatro peças de artilharia de calibre 6. O regimento de cavalaria de Minas, o de Santa Catarina, as outras duas companhias de artilharia do Rio Grande com duas peças de calibre 6 e dois obuses, os esquadrões de cavalaria ligeira do Rio Grande e a companhia de artilharia montada da Corte se postarão no Cerrito.

A legião de São Paulo e o regimento de Dragões em S. Diogo (5). Os milicianos só serão chamados quando finalmente estiver resolvida a marcha e então se unirão à coluna do Rio Pardo (S. Diogo) os regimentos de Porto Alegre e Rio Pardo. Duas companhias do regimento do Rio Grande devem unir-se ao corpo de Taim, e as seis restantes ocuparão o passo do Sarandi no Jaguarão (6).

No mesmo dia marcharão estas tropas a entrar no território espanhol, e oito dias depois dará à vela a expedição de Portugal de Santa Catarina para o sul. A coluna do Rio Pardo marchará ao Uruguai a ocupar o Salto, entrincheirando-se (sendo necessário) e procurando manter-se a todo o custo entre os rios Arapey e Daymán. A partida de voluntários do tenente coronel Manuel dos Santos Pedroso [falece de bexigas em Março de 1816], que se deve ter antes juntado nas cabeceiras do Quaraí, contornará as abas da serra de Santana para conter em respeito os índios charruas e minuanos, ou se colocará em Belém se eles se tiverem unido ao inimigo (X). O corpo do passo do Sarandi marchará à vila do Cerro Largo [Melo], e depois de bater a guarnição que lá houver (7), tomará a margem esquerda do rio Negro e a seguirá até à confluência do rio Yi, permanecendo entre os passos del Costa [?] e Durazno, ou ocupando um deles como se julgar mais seguro. Este corpo é destinado não só a cortar na parte possível a comunicação de Artigas com Montevideu, como também juntar cavaladas e boiadas para auxílio da coluna do Rio Grande que depois deve vir a este ponto (8). A coluna do Rio Grande marchará deixando a lagoa Mirim a leste pelo caminho que julgar melhor atendendo aos recursos de transporte e estação a buscar o arroio de Alferes nas cabeceiras do rio Cebollati, próximo ao povo de Rocha. O corpo de Taim tomando o forte de S. Teresa e deixando-lhe uma pequena guarnição chegará a Castillos. A expedição reconhecerá a terra na latitude 34º 6', e depois de sinais feitos e reconhecidos pelo corpo de Taim, mandará uma lancha a entrar em Castillos para tomar notícias exatas dos movimentos do exército. Não havendo motivos de dificuldade navegará a expedição a tomar porto em Maldonado, e o corpo de Taim reunido à coluna do Rio Grande marcharão para o mesmo ponto. Feito o desembarque, se juntará o regimento de cavalaria de linha do Rio Grande à tropa de Portugal e irão fazer a guarnição de Montevideu (9).

As embarcações de guerra que comboiarem a expedição, e as mais que se poderem juntar farão a guarda costa, podendo as mais pequenas subir pelo Uruguai.

A coluna do Rio Grande se dirigirá ao passo de Durazno no Rio Negro e de lá a Sandú.

O estado das forças do inimigo, a sua posição, e os movimentos decidirão os nossos, podendo dizer-se em geral que se o inimigo tiver uma força considerável e que ameace poderão as colunas de Sandú e Salto darem-se as mãos e derrotá-lo; ou vendo-se obrigadas a largar as margens do Uruguai (o que não é de presumir), volver esta para as margens do Quaraí fazer respeitar a nossa fronteira, e aquela para as do rio Negro, e hão-de sustentar-se ou voltar a reunir-se com a guarnição de Montevideu (10). Não havendo que recear se desenvolverão as colunas pelo Uruguai guarnecendo a nova fronteira, e deixando o interior em pacífica e boa ordem para a sua organização política e para abrigo de uma prodigiosa população que pode manter.

Pode ser ela de habitantes de Portugal, das ilhas dos Açores, e mesmo estrangeiros. Uma ajuizada partilha de terras daria património e todos, e as produções de gado e trigo matérias para a sua indústria e comércio.

J[oão]. V[ieira de]. C[arvalho].


* * *

[Notas] 

(1) Não falo do recrutamento feito na capitania de S. Paulo no ano de 1812, que pela sábia maneira por que foi feita não arrastou aquelas desordens. [o interlocutor, marquês de Alegrete, havia sido o capitão general de S. Paulo, desde Novembro de 1811, antes de passar ao Rio Grande]

(2) Talvez passo um pouco além do que me é prescrito, porém perdoe-se pelo verdadeiro zelo e interesse que tenho pela glória de S. A. R. e da nação. 


(3) Eu julgo o Brasil em um certo estado médio entre a pobreza dos povos para quem a guerra é sempre vantajosa, porque todos os habitantes tomam parte nela para tirar partido, e a riqueza de outros que pela sua população e recursos sustentam com uma mão a guerra e com a outra as fábricas, agricultura e comércio. Estado aquele que se ressente facilmente com os males da guerra, e que se atrasa em breve no que ganhou a custo. 


(4) Só toca aos governos despóticos e desalinhados o receio de avizinharem com governos livres e independentes. Um príncipe amável, as leis e o exército farão o Brasil respeitável. 


(5) É da primeira necessidade levar os corpos de cavalaria desta capitania à força de regimentos de cavalaria de linha. A grande despesa dos estados-maiores está feita, e a organização destes corpos, principalmente dos esquadrões do Rio Grande, é sumamente defeituosa. O regimento de S. Catarina que apenas tem quinhentas praças deverá ser porto no pé de seiscentos ao menos. Um resto da legião de S. Paulo que existe naquela capitania deverá vir a reunir-se-lhe. 


(6) Sem contar acréscimo de força que podem ter estes corpos além da que eu lhe importo, e avaliando a expedição de Portugal em dois mil homens, creio que será o estado efectivo do exército de 6800 homens. Forças mais que suficiente para chegarmos aos rios da Prata e Uruguai; porém, não a julgo sobeja quando considero a diferença que há em conquistar um país, ou conservá-lo depois em respeito para uma pacífica posse. De mais, será necessário depois licenciar os milicianos. 


(X) A defesa do Uruguai contra os rios Quaraí e Ibicuí será feita pelos milicianos do tenente coronel José de Abreu, e as de Missões pela sua força respectiva; advertindo que todas estas tropas ficarão debaixo das ordens do general da coluna do Rio Pardo. 


(7) Se no Cerro Largo [Melo] houver uma força superior à do Sarandi, então este corpo se unirá à coluna do Rio Grande e a ocupação será feita por este coluna. 


(8) O comandante do corpo de Sarandi deve ter não só as qualidades de um hábil partidário, mas até muita manha para juntar os recursos de que trato, convidando os moradores com suavidade e distribuindo proclamações que deve levar prontas para esse fim. 


(9) É necessário unir alguma tropa do país à de Portugal. Este detalhe contudo parece-me secundário e deve ficar à deliberação do excelentíssimo general em chefe, assim como uma boa parte do plano de campanha. Os movimentos de mapa e compasso não têm lugar neste país que estando de mais revolucionado podem ser vários os acidentes de campanha. 


(10) Nada digo da célebre colónia de Sacramento por ter desaparecido o motivo da sua notabilidade. As suas fortificações estão em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas. Contudo, pelo seu local deverá entrar no plano geral de  fortificação se um dia nos pertencer a margem oriental do Rio da Prata.
* * *

Nota biográfica de João Vieira de Carvalho
João Vieira de Carvalho nasceu em Olivença, em 16.11.1781, filho do coronel João Vieira de Carvalho e de D. Vicencia da Silva Nogueira de Carvalho. Estudou no Real Colégio dos Nobres. Assentou praça na 3.ª companhia do 2.º Regimento de Infantaria de Olivença como soldado a 10 de Janeiro de 1786, tendo 5 anos, e foi reconhecido cadete dez anos depois, a 10 de Dezembro de 1796. 
Foi promovido a alferes em 18 de Fevereiro de 1801 (2.ª companhia), e, depois, a tenente ajudante, em 15 de Agosto de 1805. A 13 de Março de 1806, é promovido a capitão da 3.ª companhia, e é durante esta altura que frequenta Estudos Mathematicos em Lisboa, que tudo indica ser o Real Colégio dos Nobres, mas que poderá ser a Academia Real de Marinha.
Num livro mestre do seu regimento, é referido que ele “foi pela desorganização do exército para o Brasil”. Não é certo quando, mas decerto faz referência aos inícios de 1808 quando o exército português foi licenciado por Junot. De acordo com as informações acerca dos oficiais engenheiros que serviram nas campanhas de 1809 a 1814, João Vieira de Carvalho não é listado, pelo que é de entender que terá partido para o Brasil em 1808.
Em 1809, é promovido a sargento mor do Real Corpo de Engenheiros. Como Sargento Mor faz as campanhas de 1811-1812 e as de 1816-1817, Rio Grande do Sul, sendo promovido a tenente coronel nesse último ano.

Foi barão, conde e finalmente marquês das Lages. Foi ministro da Guerra por quatro vezes.

Fontes
- Arquivo Histórico de Itamaraty, "Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete", AHI-REE-00931 [leia aqui a digitalização]
- Arquivo Histórico Militar

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Exército do Brasil: Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, Marquês de Alegrete


capitão general, marechal de campo, LUÍS TELES DA SILVA CAMINHA E MENESES, 5.º e último marquês do Alegrete e 8.º conde de Tarouca, nasceu em Lisboa,  a 27 de abril de 1775, filho de Fernando Teles da Silva Caminha e Meneses, 3.º marquês da Penalva, e de D. Maria Rosa de Almeida, filha dos 2º marqueses do Lavradio.

Em 23 de Abril de 1789, com 14 anos, assenta praça e jura bandeiras no Regimento de Infantaria do Marquês das Minas (um dos três regimentos de infantaria em Lisboa na altura, que vem a ser conhecido logo de seguida como o de Freire e que, em 1806, se torna o n.º 4). A 18 de Junho de 1790, é dispensado do exercício do seu posto para frequentar a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho, criada nesse mesmo ano. É promovido a tenente a 14 de Agosto de 1792. Um ano depois, a 1 de Setembro de 1793, é graduado em capitão, mantendo o exercício de tenente. A 25 de Abril de 1794, torna-se capitão efetivo.

Mantendo o ritmo de ascensão, é graduado em sargento mor (ou major), a 1 de Março de 1795, e no final desse mesmo ano, a 17 de Dezembro, torna-se sargento mor efetivo com graduação em tenente coronel. É nesta situação que passa ao Regimento de Infantaria de Peniche, a 30 de Março de 1796.

Em Junho de 1804, é graduado em coronel do Regimento de Infantaria de Lippe (n.º 1, como fica numerado daí a dois anos), tornando-se o seu coronel efetivo a 18 de Agosto de 1805.

Acompanha a Corte na transferência para o Brasil, em Outubro de 1807. A 13 de Maio de 1808, é promovido a brigadeiro, ficando agregado ao 3.º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro.

A 1 de Novembro de 1811, torna-se capitão general da província de São Paulo. Em 13 de novembro de 1814, toma posse como capitão general de São Pedro do Rio Grande do Sul. 

Com 41 anos, comanda todas as forças da Capitania do Rio Grande, comandando-as no terreno na batalha de Catalán.

sábado, 11 de novembro de 2017

Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817


Ao romper do dia 20 de Janeiro de 1817, pelas seis horas, toda a Divisão de Voluntários Reais assim como algumas tropas do Exército do Brasil formaram para que os seus comandantes lhes passassem as competentes revistas. 
Desde a tarde do dia anterior que esperavam no Saladero del Seco, 9 km a oeste da praça, logo após o seu general em chefe, Carlos Frederico Lecor, ter acertado os termos de rendição com emissários do Cabildo que se apresentaram em Pando. 

Após quase 6 meses de marchas e acampamentos, desde a ilha de Santa Catarina, a mais de 1000 quilómetros de distância, até este momento, todos usam os melhores uniformes, no maior garbo e asseio, e todos se preparavam para cumprir o maior objetivo de toda a campanha, Montevideu, aquilo que os trouxe à América.



Cerimonial de entrega da praça

Carlos Frederico Lecor
Às nove horas da manhã, toda a Divisão de Voluntários Reais e demais forças, do exército do Brasil (vide ‘Ordem de Batalha’ em baixo), se perfilam perante as muralhas, junto à Porta Norte, a entrada principal da cidade. Por essa mesma altura, os membros do Cabildo, o conselho municipal, Juan de Medina, Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e Jerónimo Pio Bianqui, e demais corporações da cidade, entre muito povo curioso, encaminham-se para a porta norte da cidade, onde encontram o general português.  O pintor uruguaio Gilberto Bellini captura esse momento, mostrando a pompa e circunstância, pese embora ser obra feita 100 anos depois dos acontecimentos.

Solenemente, Lecor perguntou se o Cabildo tinha algo a expor antes que ele entrasse na praça. Apresentou-se o síndico procurador geral, Jerónimo Pio Bianqui, em nome de todos, defendendo a necessidade de sufocar a “exaltación de las passiones” e acabar com os insultos que foram feitos pelos revolucionários à cidade. De acordo com Francisco Bauzá, Lecor respondeu que “estaba muy bien” e que iria levar essas preocupações a sua Majestade Fidelíssima.
Logo em seguida, Bianqui fez a entrega das chaves da cidade, pedindo que, sendo necessário, as retorne apenas e só ao Cabildo, que é quem as entrega:

El Exmo. Cabildo de esta Ciudad por medio de su Sindico Procurador General hace entrega de las llaves de esta Plaza á S. M. F. (que Dios guarde) depositandolas com satisfacion y placer, en manos de V. E. suplicandole sumisamente tenga la vondad de hacerle el gusto que en qualquier caso ó ebento que se vea en la necessidad de ebaquarla no las entriegue á ninguna otra autoridade ni potencia, que no sea el mismo Cabildo[...]

Bianqui conclui, indicando que o Cabildo espera que “un General que ha mostrada tanta generosidad á todos los Pueblos del tránsito [...] no se negará consederle esta suplica”. Bianqui foi, como veremos, na segunda parte desta postagem, uma figura fundamental na gestão dos acontecimentos. Tendo Barreiro retirado com os 800 homens da guarnição na noite de 18 para Paso del Cuello, a norte de Canelones, é ele que faz o Cabildo agir, na manhã de 19, da única forma que pode, a rendição, pedindo o razoável aos portugueses. Não há tropas, mas a cidade permanece, o comércio e a navegação devem continuar.

Sob o Pálio

Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolotina)
Entregues as chaves e feitos os cumprimentos, os maiores da cidade guiaram o general Lecor, “en la forma acostumbrada”, debaixo do pálio, entre vivas e aclamações entusiásticas, à Igreja Matriz onde foi entoado um solene Te Deum. Após a cerimónia religiosa, a comitiva deslocou-se às Casas Capitulares, onde o Cabildo estava sediado, e onde Lecor tomou a posse da cidade.
O memorialista Lobo Barreto, então tenente de caçadores, reflete sobre a natureza dos vivas que eram dados a Lecor e a D. João VI, principalmente por parte dos espanhóis europeus:

[...] um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão [...].

Versão a cores da obra de Gilberto Bellini

Segundo Francisco Bauzá, não houve apenas vivas, tendo as autoridades alguma dificuldade em conter alguns “morram os traidores, os portugueses e os aportuguesados” que se ouviam. Segundo este autor, descendente de Rufino Bauzá, apoiante de Artigas e protagonista oriental dos dias anteriores, houve algumas agressões pessoais e o falatório de outras mais generalizadas para o futuro. De facto, e apesar das derrotas que os orientais sofrem em India Muerta e Catalán, a Banda Oriental está longe de estar controlada e a Liga de los Pueblos Livres, de Artigas, está ainda longe de submetida.

O Pavilhão Portuguez

Após todas estas cerimónias, as tropas portuguesas desfilaram ainda pelas ruas principais da cidade, exibindo o seu garbo marcial e os seus uniformes castanhos distintos, que tanto tinham impressionado em Lisboa e no Rio de Janeiro. Como último ato do dia, içou-se a bandeira portuguesa na cidadela, ao que se seguiram salvas e repique de sinos. 
Lobo Barreto informa-nos que, com a exceção da Coluna da Vanguarda que ficou aquartelada na cidadela, todas as forças portuguesas se foram postar a cerca de 5 kms das muralhas, montando postos avançados. Montevideu pode ter sido tomada, mas a Banda Oriental está longe de ser dominada.

LEIA TAMBÉM:

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Ordem de ‘Batalha’
(de acordo com DUARTE: 1984)

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

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Extrato das memórias de João da Cunha Lobo Barreto

[…]

ENTRADA NA PRAÇA DE MONTEVIDÉO
No dia 20 de Janeiro ao romper do sol se formarão todos os Corpos no maior asseio possivel afim dos seos respectivos Commandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a columna nos posemos em marcha para a dita Praça, onde entramos ás 9 horas da manhã do mesmo dia; um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão como logo diremos. O General em Chefe foi recebido pelo Cabildo (Senado da Camara) debaixo do Palio, assim conduzido á Matriz, aonde se entoou Te-Deum; depois as tropas percorrerão algumas ruas do centro da cidade; e á excepção da columna da vanguarda que se aquartelou na Cidadella, forão formar uma linha a uma legoa da cidade, cobrindo os seos suburbios todos com postos avançados. O General Pinto foi nomeado Governador da Praça, e o corpo de vanguarda desfeito no outro dia.
No dia seguinte se arvorou na Cidadella, e mais fortes da praça o Pavilhão Portuguez; a cuja vista os Hespabhoes ali residentes murmurarão, e desde logo supposerão que a usurpação daquelle territorio é que ali nos tinha levado; os filhos do paiz, que até então gemião sobre o tirano jugo de José Artigas, uns porque tinhão sido por elle perseguidos, e outros querendo figurar na ordem das cousas, ou tirar vantagem della; o caso é, que se mostravão muito satisfeitos, ou ao menos assim o apparentavão, rendendo seos respeitos ao General em Chefe, que a todos habitantes acolhia com summa consideração e affabilidade, conservando todas as authoridades que se achavão constituidas, e preferindo para os empregos que se hião creando os Americanos, aos Europêos, de cuja politica estes muito se ressentião, porem mais escandalisados dos filhos do paiz, antes querião soffrer semelhante humilhação, do que de novo lhes serem sugeitos, visto que seo desenfreamento, lingoagem, e regozijo, no acto da nossa entrada, mais tinha incitado a aquelles, que de certo lhe tomarião novas e restrictas contas se as nossas tropas de ali levantassem.

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Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII