quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Combate de Sauce ou Mata Ojo: 8 de dezembro de 1816



Apesar da vitória em India Muerta, há pouco mais de duas semanas, os portugueses eram relembrados que estavam num país inimigo. Em Pablo Páez e Sauce, em quatro dias, em duas derrotas seguidas, por pequenas que sejam, os portugueses sofrem por volta de 85 mortos, divididos equitativamente entre forças de Portugal (46) e do Brasil (39).  
Estes dois combates trazem à evidência que as forças portuguesas não podem atuar com destacamentos de baixos efectivos isoladas em território oriental, em simples missões de recolha de gado (caso de Sauce) ou de vanguarda (caso de Pablo Páez). São também o resultado da adaptação das forças orientais na área, orientando-se para a guerrilha e para este tipo de contacto.

Com cerca de 80 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros, os portugueses tiveram mais baixas em Sauce, que em India Muerta (três vezes maior). Só perde para Catalán, a maior batalha desta campanha, a 4 de janeiro de 1817, com 134 baixas, mas envolvendo pelo menos cinco vezes mais homens de ambos os lados.

O Combate

Tratando-se de uma derrota com pesadas baixas, não há muita informação oficial disponível. Mesmo nas fontes orientais se verifica que a vitória levanta o moral, mas não altera as condições gerais da campanha. Em San Carlos e Maldonado, a Divisão de Voluntários Reais amassa-se, preparando-se para recomeçar a marcha para Montevidéu, o prémio. A 15, já toda a Divisão estará junta en Pan de Azucar, a pouco mais de um mês de entrar triunfalmente em Montevidéu.

As Visões

Encontrei quatro fontes. A primeira é a do já nosso velho conhecido, o tenente João da Cunha Lobo Barreto, do 2.º Batalhão de Caçadores da Divisão, que estava na Vanguarda e assim dos mais próximos aos acontecimentos. As memórias são escritas pelo menos várias décadas após os factos, mas valem pelo pormenor e as perspetivas de um oficial subalterno, muito crítico dos comandos e da disciplina.

As outras três são cartas, publicadas no precisiosíssimo Archivo Artigas, um exemplo de mérito de publicação de acervos documentais.

A primeira, portuguesa, mais detalhada, é uma carta do major Manoel Marques de Sousa ao pai, homónimo, tenente general comandante da fronteira do Jaguarão. O major Marques de Sousa não participou no combate, mas foi na coluna de alívio, no dia seguinte. O facto de comandar os dois esquadrões da capitania do Rio Grande, inseridos na vanguarda da Divisão, ilumina grandemente acerca do que aconteceu nos dias 7 e 8.

As outras duas são fontes orientais, uma, primeira, de José Cantera a Frutuoso Rivera, no dia a seguir ao combate. Cantera, comandante interino de milícias de Maldonado, participou na ação. Refere-se muito de leve à ação e indica que Venancio Gutierrez, o comandante oriental, mais diria sobre o que se passou.
Por último, uma descrição oriental mais ampla, numa carta de Manuel de Figueredo ao delegado Miguel Barreiro, chefe político da Banda oriental. Adicionalmente a alguma informação acerca do combate de Sauce, Figueredo completa a sua carta a Barreiro informando das movimentações portuguesas, alguns quilómetros mais a leste.

***


Documento I: Carta que o Sargento mor Manoel Marques de Souza escreveo a seu Pay o Tenente General Manoel Marques de Souza.

San Carlos, 17 de Dezembro de 1816.

III. e Ex. Sñr. Meu Pay e Senhor do meu maior respecto.

As ultimas Cartas que recebi de VEx., foraõ as duas de 27, e 30 do pasado, que me entregou o Ex.mo  Sñr Lecor quando aqui xegou, creio que o Ten.e Jacinto Pinto que foi prizioneiro ao sahir de Roxa por huma Partida inimiga com toda a sua cometiva me traria cartas de VEx.°, que hoje estaraõ em poder de Fortuozo Ribeiro, e naõ duvido que esta tinha a mesma sorte, porem por muitas que pilhe nunca se podera desforsar, avendo perdido na ruda [...] toda a sua correspondencia.  Depois que escrevi a VEx." a adejunta que naõ tem sieguido athe a gira por imbarasos sofremos hum prejuizo bastante considerabel.

Ja tinhamos como dise a V Ex.ª huma Partida de guerrillas de 40 Homens do Pais de baixo do Comando de Joaõ Mendousa, que V Ex.ª conhese de Maldonado, a quem se avia dado o Exercisio da sua Patente de Capitaõ que tinha por El-Rey, este homem que se ofereseo com tanto gosto, dentro em 4 dias munio os d.° 40 homens, e foi a postar com elles no Paso do Saffo [Não encontrei tal passo ou arroio, podendo ser transcrição errada: referir-se-á ao Paso de Sauce?].

Na estrada de Pan de Azucar, de cujo lugar participou que na Serra de Mata Ojo (tres legoas destantes deste lugar) andava huma Partida inimiga de 60 homens, e que tinha muita Cavalhada; 
/ e pedia que q. S Ex. o S. Ajud. General [marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia], julgase conveniente lhe manda-se hum reforzo para lhe hir tomar a Cavalhada: 

[7 de Dezembro, noite]
/ em consequência disto mandou S. Ex.ª sahir na noite do 7 do corr. hum Esquadraõ composto de prasas da Devizaõ, e dos Esquadróes de S Paulo de baixo do Comando do Capitaõ Sequeira [sic] [José Maria de Cerqueira] da Divizam, em numero de cento e tantas prasas, e os Vaquianos.

[8 de Dezembro, 02:00 H]
Às duas horas da noite foi o dito Capitão informado que haviam reunido as Partidas inimigas, 
[08:00 H]
/ Às oito da  manha tomaraõ 400 Cavalos que so tinhaõ quatro ou sinco pesoas que os guardavaõ, e sem examinar a forsa do Inimigo, seguem para diante; 

[10:00 H]
AS DEZ tomaraõ mais alguma Cavalhada, e pouco depois foi o Capitaõ informado que hia a ser atacado por trez Colunas e podendo [...] retirar-se, tem a temeridade de atacar [...]. O Corpo a que atacou deu sua descarga e fugio a Carga os de Mendousa [Juan Mendoza] que formavaõ a testa da Coluna de badaõ [?], e vem procurar os nosos que os desconheseraõ, e os repucháo inimigos; entaõ entrou a Confuzaõ e dezordem, e Consequentem. cada hum fez o que quiz, pois o Capitaõ nada dispunha: 
/ Os Corpos da Esquerda voltearam logo os nosos, e dentro em pouco tempo se viram sercados. 
/ Os nosos Soldados rezistiram como dezesperados, apezar de não tirem quem os guiase, e perferiram a morte a ser prezioneiros. 
/ Ouve hum fogo por mais de duas oras, e huma legoa de Campo ficou coberto de Corpos. Apezar de ser a destancia de quatro legoas ouviam-se aqui destante m.o as descargas;  

Sahio logo reforzo, porem no Caminho, soube que avia sido a nosa Partida inteiram. destrosada, por huma forsa de 500, a 600 Homens.  

[9 de Dezembro]
No dia 9 fomos em ssoma ao Campo e inda podemos recolher doze ou treze feridos, nove dos quaes tinha deixado em huma Caza e demos a Sepultura os mortos que exsediaõ de 50 em cujo numero entram 26 da Legiaõ de S. Paulo, finalm. o noso prejuizo anda por 80 mortos digo por 80 entre mortos e prezioneiros, e so se escapou o Capitaõ Sequeira [Cerqueira], o Tenente Pedro de Castro, 13 ou 14 Soldados.

Os Vaqueanos e os da Partida de Mendousa dos quais so morréo o dito Mendousa e trez Soldados Exaqui o disgrasado suceso do dia 8 do Corr.°, e do qual eu ainda naõ me poso lembrar sem chorar a perda dos meus Camaradas, que morreraõ chamando  por  mim  q' os  Socorrese, pela confiansa que de mim faziaõ por estar guiado em todas as ocazióes que temos batido ao inimigo com felicid.e, devido todo a sua Sobordinasaõ e Valor. Foraõ prezioneiros trez  Alf., sendo hum deles o da Legião de S. Paulo Francisco Rodrigues Modesto, faltaraõ táo bem os dois Furreis que naõ se axaraõ mortos que saõ Joaõ  Nepomuceno, e Luis  Moreira.  

[...]

P.S. Esquesia me dizer que os inimigos levaraõ duas Carretas com os seus mortos e feridos & = Marques

***

Documento II: Memórias do tenente João Cunha de Lobo Barreto

[...]

A derrota que o inimigo soffreo [India Muerta, a 19 de novembro], e as notícias que vagavão de que só tinha reunido uma pequena força nas Minas, causou a estas tropas grande confiança, que sempre costuma trazer comsigo temeridade, ou relaxação no serviço. A estrada de Maldonado, a duas leguas (c. 12,2 km) de S. Carlos, era frequentada de dia e de noite sem o menor receio; os forrageadores se alongavão do campo com pouca, ou nenhuma escolta e menos cautela; porem um desastre veio certificar-nos que estavamos em paiz inimigo; o Capitão Siqueira [Cerqueira] de cavallaria da Divisão, com uma partida de cento e tantos homens foi mandado ao Sauce, de ali um dia de marcha a buscar uma cavalhada, com ordem positiva de se retirar, o caso de ser ameaçado por força superior; avisado por nossos bombeiros de que uma grande partida inimiga o procurava, insistio aquelle Commandante em a esperar, dizendo – que lhes queria primeiro ver as caras – do que resultou ser surprehendido e derrotado, salvando-se somente elle, um sargento e dous soldados, o resto forão mortos, ou prisioneiros. Este official respondeu a Conselho de Guerra em que foi absolvido, segundo o costume de semlhantes Tribunaes, as mais das vezes benevolos.

A noticia deste acontecimento fez grande impressão no nosso acampamento; e quase toda a Divisão se pôz em marcha sobre aquelle ponto; porem a pouca distancia constando de que o inimigo se tinha retirado, voltamos ao nosso acampamento, havendo de ali em diante mais vigilancia e cautella nos postos avançados.

[...]

página 11 - Leia aqui completo

Documento III: Carta de José Cantera a Fructuoso Rivera.  

/Costas del Mataojo de Solis 9 de Dbre de 1816

Participo a Vmd, como me he retirado al punto del Mataojo p.r hallarme sin ningunas municiones p.r q.e las pocas q.° tenia ayer en el ataque se acabaron, y amas q .e  el paisano Figueredo me havia dado unos siete paquetes q.e nos han servido mucho: y asi me hará Vmd, la gracia de mandarme quarenta o Cincuenta paquetes p.a poderme acercar alas Inmediaciones del Sauce p.a estar mas á la vista de los Enemigos; y Juntam.te me hara Vmd,  la gracia de mandarme a mi Ermano y al negro q.e me hacen Notable falta.

De la acion no le digo a Vmd mas q.e hacido muy feliz pues el paisano Benancio [Venâncio Gutiérrez, o comandante oriental] le habra Escrito todo lo p.r menor: yo creo q.e el enemigo habra quedado bien escarmentado con la noticia de alguno de los q.e se escaparon q.e estos fueron bien pocos p.r q.e los paisanos se  llenaron de darle de Comer a los Corvos.

Estos dias pasados se me havian desertados algunos Individuos de mi partida y Cansados de andar de Serro, en Serro, se presentaron al paisano Figueredo lo qual cuando lo supe q.e estavan con el los reclamé como pertenecientes a mi y el  se a echo el fuerte con palabras de buena crianza y yo como no trato de Yndisponerme con ningun Compañero los e dejado hasta avisar a Vmd, y así si halla Vmd avíen q.e estos vuelvan adonde les pertenece puede Vmd, oficiarle p.a  q.e me los entriege p.r q.e de lo Contrario todos los dias se hiran y quando les peresca se le presentaran el q.e saven q.e no les hade hacer nada y es preciso no ser tan bueno p.r q.e de lo contrario estos hombres no se sujetaran en parte ninguna.

Con los prisioneros q.e lleva D. Benancio ba un americano hijo de Mald. el qual conosco yo p.r un hombre de bien y este o p.r consejos de sus padres ó a la Fuerza tomó las armas entre los Enemigos y los paisanos q.e estan Conmigo han benido asuplicarme p.a q.e le hable a Vmd, Y tenga la bondad de darle livertad p.a q.e benga a tornar las armas a favor de nuestra Causa pues yo creo q.e el esta muy arrepentido de haverse que dado en su casa creido q.e no lo harían servir y así espero en la generosidad de Vmd, Si lo halla a vien el q.e me lo remita p.a estar ami lado y no creo q.e la piedad de Vmd se niege a las Suplicas de sus Subditos q.e tanto se han empeñado con migo p.a  q.e en Nombre de todos á Vmd Suplique.

Josef Cantera
(Com. Ynt. de  Milicias  Departam. de Mald.)

***

Documento IV. Carta de Manuel de Figueredo a Miguel Barreiro

Pan de Azúcar, 11 de diciembre de 1816

/Ex. S.r

Hoi dia de la fha. he tenido el honor de la contesta de VE.ª fha. 9. del q. rije. y en cumplim. de participarle, con extencion lo ocurrido el dia 8 solo puedo explanarme: q. por D. Paulino Pimienta q.e se hallo en dho ataque, y algunos otros individuos, q. tambien ocurrieron; dicen q.e el numero de los enemigos era de ciento sinco hombres, de los cuales fueron 24 prisioneros inclusive 3 oficiales, haviendo de este numero algunos heridos; otros pocos q.e escaparon con la caballada, y los demas asta dho. completo muertos y heridos, 

/ al siguiente dia 9, se presento en dho. campo a recojer sus despojos, enterrar muertos, y conducir heridos. El numero como de 400, ó mas hombres, á Juicio de prudentes, estos luego q. evacuaron, se retiraron sin intermision p.° su destino.

En quanto VE.° me encarga la inspeccion de los movimientos adversarios puede estar cerciorado q. velo, sin intermision, pues la conducta de los enemigos es mui sigilosa, pero como estoi empapado en ella, trato de operar en los mismos terminos a fin de no quedar ilusorio.

He hadquirido noticia q el vnico campam. q.° existe en Maldonado, esta situado en la Igl.° nueba, y q.° ascendera a 400 hombres, y q.e estos han retirado los cañones q. tenian en las baterias de afuera; y q.°en S. Carlos hay dos campamentos pequeños; ygnoramos si hai mas resfuerzo por adentro, pues no biene nadie de aquellos lados q., nos puedan instruir.

Puede V E.° estar con la certidumbre q.r de lo menor le dare oportuno aviso, como igualmente de q su mas humilde y leal subdito desea ordenes de su agrado, para en su cumplim. demonstrarte su verdadero Patriotismo.

Dios Gue. a V.E. m.  a.  
Pan  de  Azocar  11 de  Dic.  de 1816
Manuel de Figueredo
S.° Delegado D. Mig. Barreyro.

Ordem de Batalha

Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

I. Cavalaria, Divisão de Voluntários Reais & Legião de Tropas Ligeiras (São Paulo)
Capitão José Maria de Cerqueira (comandante da 10.ª companhia)
(homens das 3.ª, 4.ª, 6.ª, 10.ª e 12.ª companhias)
II. Milícias Orientais ao serviço português
Capitão Juan Mendoza (40 homens, cavalaria)

Efetivos: Manuel de Figueredo fala de 105 homens, mas o número exato é dificil de encontrar, estando na cercania de 110, todos de cavalaria. Apenas os 40 das milícias comandadas por Juan Mendoza parece ser preciso. 

Marques de Sousa permite-nos chegar o mais perto indicando que houve cerca de 80 baixas e que apenas 15 ou 16 homens conseguiram escapar. Assim chegamos a um número entre 105 e 110.

Liga dos Povos Livres

Comandante, Venancio Gutiérrez

Efetivos: Sousa fala de 500 a 600 orientais em 3 colunas. Apesar deste memorialista não costumar exagerar, de facto ele não esteve presente na ação e pode-se presumir um certo exagero. 

Era constituída por alguma tropa de linha, mas fundamentalmente milícias orientais a cavalo da área de Maldonado, Pan de Azucar até Montevidéu.
Mais importante, muitos deste homens participaram na batalha de India Muerta e beneficiaram das lições aprendidas, atuando agora como forças de guerrilha, atacando inesperadamente sobre forças portuguesas fracas ou dispersas. O comandante oriental, Venancio Guitierrez, é bom lembrar, foi o comandante da ala esquerda oriental em India Muerta.

Baixas portuguesas

O número de baixas das forças portuguesas é também dificil de definir, apesar de isso ser relativamente normal na questão das baixas. Apenas o n.º de 26 mortos da Legião de Tropas Ligeiras de S. Paulo é dado, assim como os 4 mortos das milícias orientais de Mendoza, sendo tudo o resto baseado em cálculos sobre o que Marques de Sousa escreveu na sua carta.

“mortos que exsediaõ de 50 em cujo numero entram 26 da Legiaõ de S. Paulo”
Mais de 50 mortos: LSP, 26 (Of +Pç)
c.80 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos
Milícias+Vaqueanos: 1 oficial (cap. Mendonça) + 3 praças
DVR: cerca de 20 mortos.

Manuel de Figueredo especifica, da parte oriental, que foram feitos 24 prisioneiros portugueses, incluíndo três oficiais.

ADENDA
Relação dos prisioneiros Portuguezes, que no dia 17 de maio [de 1817] tão gloriosamente se libertarão e que foram originalmente capturados no combate de Sauce:

Cavalaria, DVR:
Francisco António da Silva, Alferes da 4.ª companhia, prisioneiro em Mata-ojo em 8 de Dezembro de 1816, em attaque
Vicente Ferreira Brandão, Alferes da 10.ª companhia, idem
Manuel Coelho, Furriel da 6.ª companhia, idem
José Manoel, soldado da 3.ª companhia, idem
Manoel Ventura, dito, dito, idem
José Cardoso,  dito da 4.ª companhia, idem
Antonio Rodrigues, dito, dito, idem
José Procópio, dito, dito, idem
Domingos Rodrigues Villarinhos, dito da 10.ª companhia, idem
José Garcia, dito da 12.ª companhia, idem
Antonio Valles, dito, dito, idem
Antonio Braz, dito, dito, idem

A grande fuga é uma outra história, para outra altura. 33 militares portugueses escapam do cativeiro junto dio rio Uruguai e conseguem chegar a Montevidéu, via Buenos Aires.

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.


Imagem inicial: Atardecer laguna del sauce.jpg, in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Atardecer_laguna_del_sauce.jpg

domingo, 4 de dezembro de 2016

Combate de Pablo Páez: 4 de dezembro de 1816


A Campanha e a Coluna do Centro

No Conselho de Guerra em Porto Alegre, a 20 de setembro, o marquês do Alegrete, Lecor e Silveira haviam decidido que a ofensiva portuguesa seria feita, pelo litoral, pela Divisão de Voluntários Reais, enquanto que as tropas do Rio Grande, a oeste, manteriam a defesa da fronteira e impediriam qualquer ocupação. Uma terceira coluna, no entanto, comandada pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto, e constituída por uma força projetada de 2000 homens do Rio Grande, avançaria para oeste, em direção a Salto, o principal ponto de passagem entre a Banda Oriental e a província de Entre Rios, para cortar a comunicação pelo rio Uruguai.

No início do mês seguinte e tendo os generais portugueses já uma imagem mais nítida das posições e intenções de José Artigas, verificou-se que a missão de Silveira era impossível de concretizar. A 12 de outubro, o tenente general Lecor anuncia a Alegrete a mudança do plano original. Devido à falta de cavalos para remontar a cavalaria, Lecor decide que Silveira e a Coluna do Centro (face à da da Esquerda (Lecor e Pinto) e a da Direita (Curado e as tropas da Capitania do Rio Grande), marcharia paralelamente à força principal, pelo interior, em direção a Montevidéu:

[...] do Cerro Largo pela estrada da Coxila a Montevideo, de maneira que sempre se possa comunicar comigo, [...] ao mesmo tempo o meu flanco, e dominando o paiz. (Lecor, 12.10.1816, AA)

Antecedentes

22 de Novembro

Três dias depois da batalha de India Muerta, 150 km a sudeste (e que de cuja vitória Silveira só terá conhecimento no dia 1 de Dezembro), a Coluna do Centro começa finalmente a sua marcha de Cerro Largo (Melo), parando, ainda assim,desde logo 3 dias no arroio de Conventos, a pouca distância da vila de Melo, à espera das carretas com bolacha que vinham da fronteira, pela guarda do Cerrito. O seu objetivo final era Minas, 250 km a sul, com Fernando Otorgués e a 1.ª división oriental em oposição. 

26 de Novembro

O brigadeiro Silveira começa verdadeiramente as operações do Centro, que muito vieram a contribuir – numa análise geral da campanha-  para ocupar as forças orientais na área, Rivera e Otorgués, e criar confusão sobre as movimentações portuguesas na área. Silveira destaca dois corpos, um de 200 homens, de forças da capitania do Rio Grande, sob o comando do tenente coronel [Manuel Xavier de] Paiva [Magalhães], para nordeste, sobre o passo de Mansangano, e outro, com a cavalaria da DVR e comandada pelo tenente coronel Pessanha, para sudoeste, na direção de Fraile Muerto, onde se julgava estar Otorgués.

Julguei conveniente destacar estes dous Corpos não só para pôr o Inimigo em confuzão, sobre a direcção que eu devia seguir, e evitar que na minha Retaguarda ficassem Partidas enfestando o Paiz; mas tambem para cortar algumas Cavalhadas de que tenho a maior precizão, e ao mesmo tempo atacar o flanco e Retaguarda de Ortuguez [Otorgues] quando elle se rezolvese a esperar. (Silveira, 5.12.1816, AA)



A Batalha

Nota: Os dois únicos testemunhos consultados, e até ver, os únicos que conheço em existência, são a parte oficial do brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto ao tenente general Lecor, que apesar de não ter combatido na ação, chegou a ela horas depois, e do comandante oriental Fernando Otorgués, numa carta 4 dias depois, a Frutoso Rivera. Ambos os testemunhos são colocados em ordem cronológica imediata, truncando-os e misturando-os, de forma a oferecer a mais víviva descrição possível.

A 3 de dezembro, o segundo dos destacamentos criados por Silveira a 26 de novembro, um esquadrão de cavalaria da DVR e 150 milicanos de cavalaria do Rio Grande, totalizando 300 homens, avançou até o arroio de Pablo Paes, onde acampou. A força principal portuguesa vinha atrás, a algumas horas. 

Do outro lado do arroio, acampava também a divisão de Otorgués. O comandante oriental afirma até que “quasi haviamos dormido juntos con el enemigo”.

O tenente coronel Pessanha ao perceber da presença dos orientais e calculando-os em 300, possivelmente uma avançada de Otorgués, decidiu oferecer combate, atravessando o arroio e formando linha com a cavalaria da DVR nas alas e a cavalaria e infantaria do Rio Grande no centro.

Após algum fogo de infantaria, Pessanha ordena uma carga de cavalaria que arrola a linha oriental e lhes causa “considerável estrago”, resultando na morte do capitão Manuel Galeana e de quase todas as baixas do dia, para os dois lados. 

Pessanha estava de facto a engajar a retaguarda da divisão de Otorgués, de 300 homens, com os restantes 500, mais a sul, encobertos por forte névoa, a deslocar-se para o arroio em duas colunas. Ao perceber isto, e ao ver depois uma força à distância que presumiu poder também ser inimiga, Pessanha decide tocar a reunir e retira de volta pelo arroio. Na verdade, a última força avistada eram os atiradores da Coluna do Centro, de Silveira, que se aproximavam.

Assim se concluiu a breve batalha de Pablo Paes, prenunciando de certa forma os graves problemas de comunicações que a Coluna do Centro terá, até chegar a Pan de Azucar, a 13 de janeiro, onde se reúne ao resto da DVR. 

Seguem os testemunhos de Pablo Paes:

3 de Dezembro, noite

El dia Tres me hallava campado en los Campos de Duran, y tuve parte que el enemigo seme venia ensima ato que tuve avien el rretirarme ala Isquierda. afin de atacarlos  Porla rretagua, llegue aquella misma noche a Pablo Pay. (Otorgués)

O Tenente Coronel Pessanha marchou na direcção que lhe foi indicada sem encontrar novidade athe o arroio de Pablo Paes onde tambem chegou na noite do dia 3: (Silveira, 5.12.1816, AA)

4 de Dezembro, madrugada

y llegado el dia vimos que quasi haviamos dormido juntos con el enemigo (Otorgués)

Na madrugada do dia seguinte descobrio na essa frente do outro lado do Arroio o Inimigo, que ali tinha chegado na mesma noute, e parecendo-lhe em força de 300 homens rezolveo atacalo; [pelas informarções que elle [Pessanha] me da o Inimigo aprezentou huma força de mais de 800 homens, tendo sido favorecido por huma Nevoa bastante espessa para a encobrir] (Silveira, 5.12.1816, AA)

[linha portuguesa]
/ atravessou o Arroio, formou na sua frente colocando a Cavallaria de V. Reaes nos flancos, e os Destacamentos das Tropas do Continente no  Centro:  
[linha oriental]
/ o Inimigo aprezentou a sua linha em ordem extrema, e principiou hum  fogo muito bem surtido: o Ten. Coronel depois de algum tiroteio de Infanteria carregou com a Cavallaria de V. Reaes, arrolou toda a linha Inimiga fazendo lhe consideravel estrago; (Silveira, 5.12.1816, AA)

ellos me atacaron por la rretagua, y mi vangüa p.r hallarse distante no se halló en la adcion / yó les presenté la Batalla con mi Gente de rretagua y querpo de rreserva, quedando el campo por mio haviendo rrecivido el enemigo bastante daño: vyó precipitadamente (Otorgués)
[Pessanha confunde atiradores de Silveira com inimigo e retira]
/ vendo porem aparecer pela Retaguarda do Inimigo huma Columna de mais de 200 homens de Cavallaria,  / outra pela ezquerda ameaçando o seu flanco direito,  
/ ao mesmo tempo que pelo seu flanco ezquerdo em maior distancia apareciam os meus atiradores, e que elle não pode então reconhecer, e supoz serem Inimigos tendo alem disso junto a forças tão consideravelmente superiores,  
/ mandou tocar a Reunir, e Repassou o referido Arroio de Pablo Paes, abandonando o Campo do Combate, onde tinha alcançado vantagens consideraveis,

[Pessanha percebe o erro]
/ e foi só depois de o ter passado, e de estar hum pouco preplexo sobre a Rezolução que havia de tomár, que elle reconheceo os meus Atiradores, e a vanguarda da minha Columna.
O Inimigo não se adiantou mais do que á linha dos seus Atiradores, e logo que avistou os meus ao longe, principiou a Retirar-se com precipitação, teve todavia tempo para assacinar barbaramente os  nossos feridos, que tinham ficado no Campo.

4 de Dezembro, 12 horas

Seria pela volta do meio dia quando eu cheguei á vista do Arroio Pablo Paes, e como então o Inimigo hia já em Retirada, e me levasse de dianteira muito mais de huma legoa [c. 6,6 km], o dia estivesse mui quente, a tropa, e os Cavallos fatigados pela violencia da marcha de mais de sinco legoas, que tinhamos feito naquelle dia, não era possivel podermos alcançar o Inimigo, que nos leva grande ventagem em ligereza pela falta de bagagem; mandei em consequencia reunir o Ten. Coronel Pessanha, e vem Acampar neste Sitio do Passo do Cordovez.
pelas informarções que elle me da o Inimigo aprezentou huma força de mais de 800  homens, tendo sido favorecido por huma Nevoa bastante espessa para a encobrir; defenden-se, e batense com bastante  pertinacia, e mostrou mais ordem do que se dizia, o Ten. Coronel portou-se com muita bravura, e se pelas circunstancias q. tenho referido se vio obrigado a abandonar as vantagens que tinha alcançado naó pode por isso ser creminado. O 1° Esquadrão de Voluntarios Reaes, que entrou em Acção conduzio-se muito bem, e da mesma forma o Destacamento do Batalhão do Rio Grande, e a Companhia de Guerrilhas. (Silveira, 5.12.1816, AA)

yo he tenido de perdida entre muertos y heridos veynte yncluso entre ellos al Capitan D.n Man[ue]l Galeana (Otorgués)
* * * 



Biografias

Baixas portuguesas



PABLO PAES (4/12)

MORTOS
FERIDOS
Ação
OFICIAIS
PRAÇAS
OFICIAIS
PRAÇAS
Bat Rio Grande
0
5
1
5
Milícias
0
6
0
0
Guerrilhas
0
2
0
2
DVR, Cav
0
22
1
6
TOTAL
0
35
2
7



Ordem de Batalha

COLUNA DO CENTRO
Brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto
2 esquadrões, Legião de Voluntários do Rio Grande
Destacamento, Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande
2 companhias de infantaria (DVR), maj José Pedro de Mello
Cavalaria (DVR), tenente coronel António Manuel de Almeida Morais Pessanha
coronel Antonio Feliciano Telles de Castro e Aparicio
Companhia de Guerrilhas
alguns Melicianos da  Fronteira do Rio Grande e huma Bateria de quatro Peças de Calibre 6. de Artilharia da Corte

Na ação participaram:
Comandando o tenente coronel António Manuel de Almeida Morais Pessanha 
- 1 esquadrão de cavalaria (c. 150 homens)
- 150 cavaleiros da Legião de Voluntários do Rio Grande e Guerrilhas, assim como infantaria do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande), num total de cerca de 300 homens.

1.ª DIVISIÓN (Liga dos Povos Livres)
Coronel Fernando Otorgués
c. 800 efetivos


Apenas 300 (a retaguarda e o corpo de reserva, de acordo com Otorgués) entram na ação.


Fontes

- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.

Imagem inicial: An old cart in front of Posta del Chuy, Melo, Uruguay (2007) in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Posta_Chuy_%2B_carreta.JPG


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

1.ª Brigada: João da Cunha Lobo Barreto


O tenente JOÃO DA CUNHA LOBO BARRETO nasceu em Barcelos, no ano de 1795. Alistou-se no Batalhão de Caçadores n.º 4 onde fez as campanhas de 1813 e 1814, inserido na 1.ª brigada portuguesa independente. 

Passa, com 21 anos, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, inserido no início de julho de 1816 na vanguarda comandada pelo marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia.


* * *
Memórias
BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Tomada de Maldonado (22 de novembro de 1816): contexto e visões


Contexto

Conforme as ordens do princípe regente e do governo do Rio de Janeiro, a esquadra comandada pelo chefe de divisão Ferreira Lobo teria por objetivo a conquista do importante porto de Maldonado, considerado por um conselho naval realizado no Rio em Junho como o único ponto de desembarque possível, antes de Montevidéu.

A esquadra portuguesa já estava junto a Maldonado desde Outubro, mas só quase mês e meio depois é que foi decidido o desembarque e ataque à cidade. Muito do atraso teve que ver com o atraso das forças terrestres que ficaram, na sua maioria, paradas em Pelotas e vila do Rio Grande pela maior parte de setembro e outubro.

Estas estavam já firmemente implantadas na área das lagoas Negra e de Castillos, e ainda sem ser do conhecimento da esquadra, tinham obtido uma decisiva vitória, apenas 3 dias antes, em India Muerta, mais para o interior.

A importância estratégica de Maldonado é bem demonstrada por ter sido nesse porto, quase 5 meses antes, a 20 de junho, que se obteve a certeza absoluta que a expedição portuguesa tinha saído do Rio de Janeiro com vista a atacar a Banda Oriental e  José Artigas. 
Quase meio ano depois, cai Maldonado e abre-se um pouco mais a estrada de Monmtevidéu.


Parte oficial do chefe de divisão Rodrigo José Ferreira Lobo respeitante à tomada da cidade e do porto de Maldonado, a 22 de novembro de 1816

Ill.mo e Ex.mo Snr

Tendo o maior prazer, e satisfação de participar a V. Ex." que no dia 22 do corrente, fiz hum dezembarque em Maldonado com as Tropas que tinha de transporte, e reforcei esta com a Brigada Real da Marinha, fazendo ao todo o numero de trezentos homens, e quatro peças de Campanha, sendo estas puchadas em parte por marinheiros, e attesta delles Officiaes de Marinha, tudo debaixo do immidiato Commando do Mayor Cotter, que me satifez grandemente, e me deo as provas mais decizivas do seu valor, e intelligencia em tudo quanto fui necessario fazer, não duvidando de pór em prática a mais pequena coiza que lhe determinei, 

/pois que assisti ao dezembarque, e a marcha que fez aquelle Corpo, até que abarracou fóra da Povoação, tendo primeiro Ordenado, que fizesse alto a Columna, a tiro de fuzil fóra da Torre de Maldonado, e logo depois entrou dentro da Cidade o Ex.""' Conde de Vianna, para tratar das Condições que remetto por Cópia, e me forão apprezentadas na frente da Tropa, que estava em  linha na frente da dita Torre, onde eu estava ao lado do Commandante della, elogo que approvei o que o Ex.""' Conde tinha feito; este subio a sobre dita Torre, com alguns dos Commandantes dos  Navios, e varios Officiaes da Marinha, e elle mesmo issou e fes tremolar a Bandeira  Portugueza, seguindo-se logo trez descargas de mosquetaria, e húa salva d'artelharia e sette Vivas de Viva  EIRey, seguindo-se immediatamente embandeirar a Esquadra, e dar huma salva Real; 

/e devo dizer a V. Ex.ª que foi hum dos dias que tenho tido de maior prazer, porque em todos observei o maior contentamento possivel, e dezejando achar a maior rezistencia, para mostrarem o dezejo que tem de se exporem pelo nosso amavel Soberano; e quando virão que não podião satisfazer a sua Vontade, não ficarão nada satisfeitos; devo igualmente partecipar a V. Ex." que estou muito agradecido ao Conde de Vianna, pois que tem huma grande parte nesta acção, que foi por mim encarregado da dispozição della, em que mostrou decizivamente a sua grande intelligencia, e interesse que tóma por todo, e qualquer servio de S. M. aquem devo recommendar todos os Officiaes, não só de Marinha, mas tambem da Tropa, e destes com particularidade o Major  Cotter, e o Capitão d Artelharia, Antonio Joze da Silva; 

/ e pouco antes de se pór o sol embarque¡, e mais o Ex.mo Conde de Vianna, tendo deixado as Ordens que herão necessarias ao Mayor Cotter, para que não avançace para o frente por que o meu Plano, não hera o de conquistar mas, sim o de sustentar aquella pozição, e do que elle hera de parezer. 

Remetto a V. Ex.ª a Proclamação que fez. 

Deos Guarde a  V.  Ex
Abordo da Nau Vasco da Gama, surta defronte de Maldonado, 23 de Novembro del 1816.

Illmo Ex.mo Snr Marquez d' Aguiar
Rodrigo  Joze  Ferr.ª  Lobo
Chefe da Divizão Com.te

Imagem
Costa de Punta Ballena, a oeste de Maldonado, como em

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:PANO_20141019_173454.jpg

Fonte

- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Exército do Brasil: Manoel Marques de Sousa


O sargento mor MANOEL MARQUES DE SOUSA nasceu em 1780, na Vila do Rio Grande, filho do tenente general Manoel Marques de Sousa. Após os estudos iniciais, assentou praça na Legião de cavalaria ligeira do Rio Grande, ascendendo a 6 de novembro de 1799 a ajudante, posto com que participou na campanha de 1801. É promovido a capitão comandante da 2.ª companhia. 
Participa nas operações do Exército Pacificador da Banda Oriental, em 1811. Dois anos depois, a 13 de Maio de 1813, é graduado em sargento mor da Legião. 

Em 1816, com 36 anos, é destacado no comando de um esquadrão da sua legião e um esquadrão da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, formado das 2.ª e 4.ª companhias.

Imagem
Igreja Matriz de São Pedro e Capela da Ordem Terceira de São Francisco, Vila do Rio Grande, retirada de: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lateral_da_Igreja_Matriz_S%C3%A3o_Pedro.jpg?uselang=pt

sábado, 19 de novembro de 2016

Batalha de India Muerta (19 de novembro de 1816):a batalha



A Campanha
Após a acalmia das operações na fronteira do Rio Pardo, com a vitória na batalha de Carumbé [ler], era a vez da Divisão de Voluntários Reais (DVR), do Exército de Portugal, entrar em ação na costa atlântica da Banda Oriental, após uma pausa de 2 meses devido a problemas de recolha de cavalos. 

Desde agosto que a vila de Mello, mais para o interior, e a fortaleza de Santa Teresa, à entrada da Angostura, estavam ocupadas por forças do Rio Grande, exatamente para preparar a chegada da Divisão: a 9, Melo ou Cerro Largo era tomada pelo coronel Félix de Mattos, e, a 12, Santa Teresa é facilmente tomada pelo major Manoel Marques de Sousa.


O marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, comandante da coluna de vanguarda da DVR, partiu  no dia 9 de novembro da fortaleza de Santa Teresa em direção a passo de Castillos, um incipiente povoado entre as lagunas Negra (maior, a norte) e de Castillos (menor, a sul), que abre para Rocha, Maldonado e depois Montevidéu. O tenente João da Cunha Lobo Barreto escreve, nas suas memórias, que antes da Vanguarda sair, procedeu-se a uma parada de cavalaria que descambou em desastre:

[...] ao proferir – a cavallo – foi tal a desordem que a não podemos descrever: soldados correndo á descripção dos cavallos; outros lançados por terra; arreios dispersos... finalmente era uma scena de riso. (Lobo Barreto, p. 7)




A Batalha
Ambos os comandantes tinham ordens de atacar o inimigo numa ação geral se considerassem haver a mínima possibilidade de vencer. O primeiro, pelas instruções do tenente general Lecor e o segundo de José Artigas.

A 16 de novembro, nos passos a noroeste da lagoa de Castillos (Consejo e Chafalote), um pouco além de Castillos e recebendo informação de locais que o grosso da força do comando de Frutoso Rivera estaria no arroio de Alferez, cerca de 60 km a ocidente, Sebastião Pinto decide-se a atacar Rivera, pedindo duas companhias de caçadores emprestadas ao 2.º Batalhão, da brigada de Pizarro, aumentando assim a sua força [vide Ordem de Batalha em baixo].

No dia seguinte, “se emboscou” nuns palmares (de Talayer?), um pouco a norte de Castillos e coberto pela marcha da 2.ª Brigada para o passo de Chafalote na estrada principal, marchou de noite para oeste, cada vez mais para o interior.

Na madrugada do dia 18, por volta das 7 da manhã, a Vanguarda topa duas partidas orientais de reconhecimento (bombeiros, como eram então conhecidos). Apesar disso, Sebastião Pinto consegue chegar às costas do arroio India Muerta, no passo de Coronilla, como era então conhecido, mantendo a infantaria e artilharia ocultadas (relembremos: 4 companhias de granadeiros e 4 companhias de caçadores). Pernoitaram junto à casa de Manoel dos Santos.

Prevenidos dos movimentos dos portugueses, Rivera e os seus cerca de 1800 orientais, uma mistura de milícias e algumas tropas de linha, que estavam a treinar há algum tempo na área do arroio de Alferez marcham rapidamente ao encontro do inimigo:

En el acto montamos á caballo, infantería y caballería y salimos á encontrarlos; amanecimos á retaguardia del enemigo, que había marchado esa noche como nosotros igualmente, [...]. (Cáceres, p.x)

No dia 19, os portugueses atravessam o arroio de India Muerta e marcham até o Puesto da Vella Velazquez, cujas ruínas ainda podem ser vistas hoje. Fazem este pequeno percurso de cerca de 600 m, sob fogo inimigo ligeiro e batendo cada vez mais partidas inimigas. 
Do Puesto avançam para o passo de Manoel Patricio, mais a ocidente, no arroio de Sarandi de la Paloma onde chegam às 11 horas. Lobo Barreto descreve esse sítio como “um pequeno pessegal junto a um rancho de palha”. Aí, Sebastião Pinto manda descansar e carnear.


Plano da batalha de India Muerta, in Vaszquez (1953)

Nesse momento, ainda atentos a algumas partidas a oeste, enquanto se preparava decerto o gado para matar, as tropas portuguesas começam a descortinar, a leste, na sua retaguarda, uma enorme coluna de cerca de milhar e meio de cavaleiros com 4 de frente a tomar o Puesto da Vella Velazquez: o grosso das forças orientais no teatro.

Enquanto os orientais se dispuseram em linha de batalha junto ao Puesto, uma enorme meia lua, com a cavalaria nas alas, os portugueses tomaram as suas providências, deixando uma companhia de caçadores no passo de Manoel Patricio, onde estavam, sob comando do major Andrew MacGregor, um dos dois ingleses da Divisão, e, formando um quadro, passaram a zona alagada da Cañada do Espinal e formaram linha a cerca de 750 metros dos orientais, em terreno mais baixo, sempre sob fogo inimigo, ainda que extremamente eficaz dadas as distâncias.

O inimigo, frio espectador da nossa manobra e atribulação, desenvolveu a sua forte coluna em linha de batalha, formando uma meia lua a um quarto de légua do passo, tendo no centro o seu canhão e a pouca infantaria. (Lobo Barreto, p.7)
Croquia da batalha, de acordo com Ramon de Caceres

Apesar do que muitas fontes dizem, os orientais não eram só cavalaria. Na verdade, a maioria era infantaria, mas todos andavam a cavalo. Ao contrário das forças portuguesas, treinadas como unidade desde pelo menos julho de 1815, as orientais eram formadas fundamentalmente de milícias, e algumas delas criadas ainda em 1815. Ramón de Cáceres mostra-nos bem o carácter amador da maioria neste exército de patriotas, ainda que bem intencionados e defendendo a sua terra.

Testemunhos e localização na batalha
Deixo, por ora, a descrição da batalha propriamente dita às penas de quem a combateu e testemunhou e cujas memórias podem ser lidas em postagens diferentes. Para facilitar uma exploração do caro leitor, deixo uma imagem adaptada com as posições de cada um dos memorialistas que temos vindo a lembrar neste blogue.

Preparo um livro sobre esta campanha, mas deixo-vos aqui quase todas as fontes de memorialistas. A leitura das fontes é metade do divertimento. Interpretá-las é o resto e o mais custoso.

Adaptação do mapa

(I) marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia
Relatório oficial da batalha, enviado 2 dias depois ao tenente general Lecor. Dá um mérito excessivo às 4 companhias de granadeiros na decisão da batalha que Lobo Barreto desmente, indicando que apenas dispararam uma salva quando já o inimigo estava em debandada.

(II) tenente João Cunha de Lobo Barreto
Memórias escritas décadas depois e publicadas em 1947, com anotações do Barão do Rio Branco. O texto é aparentemente anónimo, mas o autor identifica-se à frente no texto. Demonstra um forte desagrado face à conduta do comandante da Coluna da Vanguarda, Sebastião Pinto, assim como face à sua experiência de comando em combate. Este tipo de interação social entre oficiais do exército português era extremamente comum, na lógica social da economia de favores do Antigo Regime.

(III) sargento mor Manoel Marques de Sousa
Carta escrita dois dias depois ao seu pai e comandante de unidade, a quente, e após ter ficado contuso em virtude de combate. Porque ao pai, há mais candura na descrição.

(IV) teniente segundo Ramon de Cáceres
Memórias escritas, salvo erro, em 1830, década e meia depois. Existem duas versões semelhantes e complementares, assim como um croqui numa delas. Ambos textos na mesma edição.

(V) cirurgião Francisco Dionisio Martinez
Memórias escritas anos depois, relembrando a sua pronta ação no socorro dos feridos orientais na batalha nas horas e dias a seguir. Ainda que não na batalha, as suas memórias mostram-nos o estado das forças orientais derrotadas, dispersas e ébrias e a sua posterior recuperação sob o capaz comando de Frutuoso Rivera.


***

Alguma cauções e notas , no entanto, em termos de interpretação. Dois temas controversos no diálogo entre os memorialistas, entre o fumo dos mosquetes, o grito de camaradas feridos, nalguns a instantânea descida ao caos do combate, noutros a primeira batalha, o baptismo de fogo. São eles:

Início da Ação: carga portuguesa numa ou nas duas alas?
Ao contrário do que refere Ramón de Cáceres nas suas memórias, de facto apenas a cavalaria da ala direita é que carregou o flanco esquerdo oriental no início da ação. Sabemos isto porque Manoel Marques de Sousa, que escreveu sobre isso 2 dias depois ao pai, comandava a ala esquerda portuguesa e indica claramente não ter havido carga do seu lado. Se tanto, Marques de Sousa acabou por ser ver envolvido inadvertidamente, como é óbvio, com uma coluna de cavalaria inimiga.



Os 'Talaveras': os problemas na cavalaria
São as memórias de um oriental, Ramón de Cáceres, no seu baptismo de fogo, aos 18 anos, que nos informa algo muito relevante sobre as táticas da cavalaria portuguesa:

Los 100 hombres que atacaron nuestro costado izquierdo [o primeiro ataque da cavalaria portuguesa], venían como en 4 filas con 25 hombres de frente, traían la espada en mano y eran puros talaveras que aun no sabían andar á caballo, ó por mejor decir, no conocían los caballos de la tierra, por cuya razón se prendían por el muslo en las pistoleras con las correas que tenían para asegurar el capote, y una prueba de esta verdad es que algunos que allí murieron, fueron arrastrados por sus caballos sin poderse desprender de la silla. (Caceres)

(Refere também o uso de espadas direitas, que seriam usadas por cavalaria pesada, conforme Manuel Ribeiro Rodrigues)

Ficamos aqui com a confirmação da problemática adaptação da cavalaria portuguesa aos cavalos locais (para não falar da falta deles), que mencionei acima com o episódio da parada de cavalaria do dia 9/11, ainda na fortaleza de Santa Teresa. 
Ainda hoje Talavera indica alguém que não sabe andar a cavalo, por arcaica e desusada que seja. Irónico que a batalha de Talavera, no distante 1809, não tenha contado com a participação de tropas portuguesas, mas atesta, certamente, o estatuto icónico da primeira grande vitória de Wellington na Espanha e a reverberação no novo mundo.


Ordem de Batalha

Divisão de Voluntários Reais, Exército de Portugal
COLUNA DA VANGUARDA
Marechal de Campo Sebastião Pinto de Araújo Correia

- 2 esquadrões de cavalaria, DVR 
(tenente coronel José Tovar Albuquerque e sargento mor Duarte Mesquita Correia)
- 4 companhias de granadeiros, DVR
(tenente coronel António José Caludino Pimentel)
- 1 obús, DVR
(1.º tenente Gabriel António Francisco de Castro)
- 4 companhias de caçadores (uma de cada batalhão), DVR 
(sargento mor Jerónimo Pereira de Vasconcelos e sargento mor Andrew McGregor) (2 delas emprestadas no dia 17/11 pelo 2.º Batalhão de Caçadores)
- 2 esquadrões de cavalaria da Legião de Voluntários Reais do Rio Grande + 2 esquadrões de cavalaria da Legião de Tropas Ligeiras (ou de São Paulo)
(sargento mor Manoel Marques de Sousa).

Exército Oriental , Liga de los Pueblos Livres
CORPO DE OBSERVACIÓN (2.ª DIVISION)
Coronel Frutuoso Rivera

- 3 divisões de infantaria, 250 h cada (dividida em 5 companhias)
- Divisão de Cavalaria da Direita, 250 h

(capitão Ramón Mansilla)
- Divisão de Cavalaria da Esquerda, 250 h
(capitão Venancio Gutiérrez)

Baixas (portuguesas)

INDIA MUERTA (19/11)

MORTOS
FERIDOS
Ação
OFICIAIS
PRAÇAS
OFICIAIS
PRAÇAS
Cav, DVR
1
24
2
24
Inf, DVR
1
1
0
16
Cav, LSP
0
1
1
6
Cav, LegCav RG
0
0
0
0
TOTAL
2
26
3
40



Oficiais Mortos
Sargento mor Duarte Joaquim Correia de Mesquita
Alferes Carlos Frederico Krusse

[dados a 21.11, dados pelo sargento mor Manoel Marques de Sousa:]
“Esquadrões de S. Paulo:- major José Pedro Galvão: teve uma contusão de metralha nas costas sobr. Pescoço- furriel António José Pessoa: uma contusão de bala de clavina na perna levemente- trombeta Domingos da Costa: uma ferida de bala na coxa- soldado Francisco de Albuquerque: ferida de bala nas costas- João Baptista da Silva: ferida de bala na perna- Fernando Rodrigues: ferida leve de bala no lado direito- José Domingues: contusão na perna com bala levemente- José António Monteiro: morto
Infantaria da DVR: - 3 mortos, 18 gravemente feridos; 14 levemente feridosCavalaria: - Mortos: 1 major, 1 sargento, 23 soldados e cabos- Gravemente feridos: 1 tenente coronel, 1 capitão, 1 sargento ajud, 1 furriel e 22 soldados”.

Biografias
Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- CACERES, Ramon de, “Memoria de Don Ramón Cáceres sobre Hechos Históricos en la República Oriental del Uruguay”, in: Contribución documental para la Historia del Río de la Plata (Tomo V), Buenos Aires: Museu Mitre, 1913. pp. 251-270 (pp. 266-269)
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- MARTINEZ, Francisco Dionisio, Autobiografía de Francisco Martínez Revista Histórica tomo 6.°, pág.416 y 628.In: Boletin Histórico, n.º extraordinário, setembro 1950, Estado Mayor General do Ejército, pp. 230-233
- PARALLADA, Huascar, “Primeira batalla de India Muerta (concurrencia documental y notas)”, in: Boletin Historico, n.ºs 112-115, 1967, Estado Maior do Exército do Uruguai, pp. 191-236.
- RODRIGUES, Manuel A. Ribeiro, Guerra Peninsular (II): Cavalaria 1806-1815 (1.ª Reimpressão), Edições Destarte, Lisboa, 2000. pp. 24-25
- VAZQUEZ, Ten. Cor. Juan Antonio, Artigas Conductor Militar (Coleção General Artigas, n.º 12) Centro Militar, Montevidéu, 1953.

- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.

ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR
ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO